sábado, 15 de fevereiro de 2020

Para a Luz brilhar nas trevas


     No recente quinto domingo do Tempo Comum, a primeira leitura posta sobre a Mesa da Palavra, extraída dos ditos do profeta Isaías, aguçou-me.
           Disse Isaías:

     “Se, pois, tirares do teu meio toda espécie de opressão, o dedo que acusa e a conversa maligna; se entregares ao faminto o que mais gostarias de comer, matando a fome de um humilhado, então a luz brilhará nas trevas; o teu escuro será igual ao meio-dia” (Is. 58, 9b-10 -Bíblia Sagrada – tradução da CNBB – 2001 – pg. 1020).

            Estamos em tempos de muita escuridão.

     Escuridão porque nos conformamos, e assim nos confortamos, no imediatismo do que se diz, acelerada e superficialmente, como o absoluto verdadeiro.
          Tão útil é saber ouvir, que pede o silenciar, dispor-se, portanto, ao meditar, que tudo pondera para então expressar posicionamento fundamentado
 porque fruto, também, do desejo de conhecer profundamente e não se deixar ludibriai por gestos e palavras de mero efeito porque ausentes de conteúdo.
     Escuridão porque o que se diz, acelerada e impositivamente, assim é dito na expressão do ser autoritário, mascarado na linguagem ardilosa e em chavões destituídos de seriedade.
     Tão útil é dispor-se a apresentar-se como se é, fazendo face, sem truques ou rodeios. Apresentar-se ao diálogo aberto, franco e respeitoso, abdicando de assumir posturas preconceituosas, deseducadas e truculentas.
     Escuridão porque tudo se faz relativo, transitório, manifestação clara do sabor hedonista, fruto do comportar-se egocêntrico e desestruturado, traduzido no: faço o que eu quero; com quem eu quero; quando eu quero; como eu quero. Total ausência de fraternidade: o outro, próximo ou distante, uso-o e o descarto.
     Tão útil fazer do cotidiano o contínuo aprendizado de aproximação das verdades absolutas. Por princípios a nos  guiar na senda de valores compatíveis com a sociedade humanista, cujo primado está na defesa da vida, que não deve ser privada do existir em abundância; que não deve ser impedida de se desenvolver cultural, social e politicamente; que não deve ser censurada por interagir com a natureza numa relação de cuidado e encanto.
     Vida, presente inestimável do Deus-Amor a todas e a todos nós, suas criaturas.
     Sim, criaturas alçadas à dignidade de ser porque dotadas da liberdade no decidir como a vida há de ser vivida.  Porque o Deus-Amor, justo porque é o Amor, nada nos impõe, mas sempre nos propõe.
     Encerro com as palavras do Professor Juan Biosca González:
     “Leonardo Polo explicou com clareza didática que no ser humano termina a evolução das espécies e começa o desenvolvimento cultural. A hominização mostra a evolução do corpo que levou à aparição do homo sapiens sapiens. A humanização vai mostrando que, cada vez mais que o ser humano se serve de melhores instrumentos, as mudanças mais significativas não são tanto morfológicas mais culturais.
Mas revela também um dado inquietante: os hominídeos anteriores desapareceram por falta de destreza técnica. Mas o sapiens sapiens pode desaparecer por excesso ou descontrole da mesma. Se o trabalho perde o seu sentido humano porque se desconecta do sentido transcendente da natureza e o ser humano se sente seu dono e não apenas o seu administrador; se a procriação humana não leva ao crescimento no respeito mútuo entre o homem e a mulher na sua missão de fazer crescer, nutrir e educar os filhos, nada garante que se desenvolva um trabalho leal à natureza, isto é, que a posição superior do ser humano diante a criação não derive em abuso da mesma, pervertendo, assim, o mandato bíblico de crescer, multiplicar-se e dominar a terra por consumir, empobrecer-se e destruir a terra.
O que está em jogo em todas as mudanças sociais é o conceito de pessoa. Para o atual sistema econômico, o ser humano é reduzido a capital humano. Nesse sentido, está subordinado ao cálculo de utilidade. O ser humano tem valor enquanto for produtivo. Quando deixa de sê-lo é um obstáculo, já não interessa mais. Por isso, hoje se fala de população sobrante. As leis do mercado determinam quem são os sobrantes ou descartados: os desempregados, os excluídos, as crianças submetidas à exploração laboral, os imigrantes, o terceiro mundo, os países empobrecidos.
Por tudo isso, mesmo com as limitações que possuímos, é preciso mais do que nunca revalorizar o patrimônio humanizador da Doutrina Social da Igreja. Na sua origem está uma antropologia que salva a nossa humanidade do ecocídio ao qual estamos condenados pelo sistema hegemônico do mercado global”. (leia-se: González, Juan no artigo: A violação dos direitos humanos no trabalho – livro Doutrina Social da Igreja e o cuidado com os mais fracos – Ronaldo Zacharias e Rosana Manzini, organizadores – pg. 95 – Edições Paulinas).

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL


                                          

“Se eu pudesse, à noite, no caminho das pessoas desanimadas, pessimistas, amargas, revoltadas contra tudo e contra todos, arranjaria rodas de criança brincando e cantando...”.
Assim escreveu Dom Helder Câmara no livro: “Um olhar sobre a cidade”.
Brincar é simplesmente sair dos esquemas preordenados, sair dos sistemas enclausurados, sair e deixar-se surpreender pelo que não está previsto e posto, tornando a vida a arte de criar o inconcebível. Cantar é simplesmente expandir-se, ir além do discurso rotineiro, insípido, monótono, tornando a vida a arte de criar o inimaginável.
“Se eu pudesse, na hora mais dura do enterro, quando o caixão é colocado terra adentro, eu faria com que voasse sobre a cabeça dos presentes um bando de passarinhos, lembrando a Ressureição”. (ainda Dom Helder).
Lembrar a Ressureição é por de lado o desmesurado  poder; o desmesurado prazer, o desmesurado possuir e simplesmente assumir-se como a finita criatura, que não se basta a si mesma, mas necessita, para viver, conviver no abrir-se aos demais e ser continuamente fraterno; no inserir-se ecologicamente e ser atentamente cuidadoso; no elevar-se a Deus e ser humildemente eterno.
“Se eu pudesse na caminhada de quem enfrentasse estradas sem fim, sem luz, sem companhia, faria surgir vaga-lumes alumiando o caminho...” (prossegue Dom Helder).
Alumiar o caminho é discernir, é buscar, incessante e conscientemente, jamais ao sabor da mera informação rápida, interesseira, volúvel, destrutiva, é, então, buscar o que é essencial, que se encontra na leitura enriquecedora, no diálogo franco e fundamentado, enfim: alumiar é educar.
“Se eu pudesse, daria ao arco-íris a força mágica de desfazer ódios, intrigas, divisões, de modo que ele valesse, de fato, como sinal de entendimento, de amizade e de paz...” (encerra Dom Helder).
O arco-íris é, justamente, arco porque abarca tudo, desde seu ponto de partida a seu ponto de chegada sem qualquer tipo de exclusão; é íris porque traz as cores do espectro solar em perfeita harmonia e no seu movimento de ascender e descender encerra a comunhão plena do homem, que ascende para o Deus, que descende ao homem.
A expressão mais nítida do Deus-Amor no desejo Seu dessa total comunhão vamos, todas e todos, celebrar no dia 25 de dezembro:

                                                     Feliz Natal!
  


sábado, 31 de agosto de 2019

A LUZ SEMPRE IMPERA SOBRE AS TREVAS


                          

Acabo de escrever artigo, realçando algumas frases a nos indicar modo de viver em paz, para que construamos sociedade verdadeiramente humanista, capaz de promover a mulher e o homem em sua integralidade.
Uma dessas frases, do jornalista Albert Camus, diz em seu primeiro momento:
“A lucidez supõe a resistência às tentações do ódio”.
Pois bem, deparo-me agora com condutas de procuradoras e procuradores da República do chamado “círculo da lava-jato” a expressar brutal insensibilidade e menosprezo para com episódios de tanta tristeza que, recentemente, marcaram a vida do Presidente Luis Inácio Lula da Silva: a morte de sua esposa; a morte de seu irmão; a morte de seu neto.
Por que tamanho ódio?
Perdem-se, por completo, e gravemente tisnam o seu exercício funcional esses servidores públicos quando, subvertendo totalmente a razão de ser do processo criminal, que é a busca da verdade real do fato que apresentam na peça acusatória a iniciar o processo de tal natureza, ao invés de se aterem à objetividade dos autos, que propicia o debate sereno, ainda que contundente, tudo desnaturam, transmudando-se de acusadores em perseguidores.
Um membro do “círculo da lava-jato” esta semana disse que:
“Errei. E minha consciência me leva a fazer o correto: pedir desculpas à pessoa diretamente afetada: o ex-presidente Lula”. (procuradora da República Jerusa Viecili).
Logo a seguir preocupou-se ante o reconhecimento, assim explícito, da veracidade dos conteúdos das demais mensagens que o “círculo da lava-jato” com imensa desenvoltura encetou com o, à época juiz federal, Sergio Moro, afirmando então Jerusa que as outras mensagens “foram descontextualizadas ou deturpadas”, como se se pudesse estabelecer a verdade circunscrita à mera opinião pessoal, inclusive a lhe favorecer, posto que ao dizer que as demais mensagens “foram descontextualizadas ou deturpadas”, a procuradora Jerusa cai no vazio do dizer, sem demonstrar. Lastimável atitude, mormente por parte de quem desde os bancos universitários aprende, como elementar, que o que se diz deve ser provado.
O sectarismo, no “círculo da lava-jato” é eloquente.
Abdica-se de outra frase, que apresentei no mencionado artigo, agora de São Paulo:
“Importa tudo ponderar para reter o que é bom”.
O ato de acusar não deve espelhar preconceitos, emocionalismos, exacerbações.
O ato de acusar a conferir relevo à descrição fática ordenada e coerente é, por tal razão, objetivo e sóbrio.
A trilha, ainda que titubeante, aberta pela procuradora Jerusa deve ser percorrida por ela e por quem mais se disponha à revisão de condutas tão desumanas no plano pessoal e, certamente, ilegais, no pleno profissional.
“Não se ponha o sol sobre vossa ira” é o lúcido ensinamento de São Paulo aos efésios (Ef. 4, 26 b).
Os tempos de agora são sombrios porque carregados de ressentimentos e violência.
O ressentimento e a violência expressam a incapacidade de discernir e, no entanto, o discernimento é vital para o convívio civilizatório.
Discernir é atingir o cerne: a existência e a essência do que se examina.
A tanto alcançar – e também já o disse antes em artigo escrito em conjunto com três amigos meus – necessitamos firmar e afirmar princípios.
Em tempos sombrios, os princípios, mesmo os que têm natureza constitucional, são furiosamente atropelados por orquestração ensandecida em redes sociais: o ódio tudo alimenta; nada é ponderado.
Basta!
E o basta a esse estado de coisas só pode acontecer, e deve acontecer, com comportamentos concretos em defesa do convívio democrático; de atitudes de quem não se amedronta em encarar o grave erro, que se estabelece, assumindo, com independência, iniciativas e decisões que resgatem os princípios, que jamais podem ser postergados: a imparcialidade do juiz e o zelo na observância do processo judicial que nasce; se desenvolve e define-se preservada a igualdade das partes no litígio posto em Juízo: o fair trial.
Resistamos ao culto da fatalidade – segundo momento da frase de Albert Camus – porque a luz sempre impera sobre as trevas.

ÁLVARO AUGUSTO RIBEIRO COSTA – ex-Procurador Federal dos Direitos do Cidadão.
CLAUDIO LEMOS FONTELES – ex-Procurador Geral da República.
MANOEL LAURO VOLKMER DE CASTILHO – Juiz do Tribunal Regional da 4ª Região aposentado.
WAGNER GONÇALVES – ex- Procurador Federal dos Direitos do Cidadão.


terça-feira, 27 de agosto de 2019

SÃO PAULO e ALBERT CAMUS: frases ditas.


                  SÃO PAULO E ALBERT CAMUS: frases ditas.

“Examinai tudo e guardai o que for bom”.
É a orientação de São Paulo aos Tessalonicenses, na primeira carta que escreveu para essa comunidade (1 Ts. 5, 21).
“Examinai tudo”.
Examinando tudo, de plano pomo-nos em desacordo com qualquer atitude sectária.
Abdicamos, assim, de nossos preconceitos e nos colocamos abertos à disposição de ouvir e refletir sobre o que se ouve.
Nada de incessante loquacidade; nada de usarmos palavras e expressões chulas na ilusão de agradar público caracterizadamente medíocre por, justamente, alimentar-se de palavras e expressões chulas.
Examinando tudo havemos de afirmar princípios, que nos permitem estabelecer critérios e, então, assumirmos posicionamentos sérios porque embasados e fundamentados.
Examinando tudo as fake news não resistem e se evaporam.
A superficialidade, tônica da comunicação nos dias de hoje, é superada por manifestações culturais, que trazem consistência no que expressam e, portanto, apresentam – indicando que não se tem diante bando amorfo de indivíduos – pessoas capazes de revelarem, porque se revelam sem subterfúgios, o para onde caminhar e como assim fazer sua história pessoal e comunitária.
“A lucidez supõe a resistência às tentações do ódio e ao culto da fatalidade”.
É a orientação de Albert Camus no responder à sistemática censura ao exercício de sua profissão de jornalista empenhado em libertar seu país, a Argélia, da subjugação colonial.
Resistir às tentações do ódio é renunciar à violência, sobrepujando-a com a serenidade e a paz. É despir-se do comando autoritário, grosseiro, truculento, assumindo a acolhida, a gentileza, a fraternidade.
Resistir às tentações do ódio é educar-se na perseverança da mística de ser para e com o outro como compromisso irrenunciável porque não se pode tergiversar na construção cotidiana do bem comum.
Resistir, em segundo momento, ao culto da fatalidade é ser livre.
Expressa-o, muito bem, São Paulo quando diz em carta aos Gálatas:
“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. (GL. 5, 1).
Sim, a liberdade cristã radica na possibilidade infinita, enquanto vivermos, de conhecer o desconhecido; iluminar o que está oculto; movimentar o que se tornou imóvel; desamarrar o que está manietado.
Como acrescenta o padre jesuíta Jean Yves Calvez no seu artigo “Utopia Social” sobre o significado de ser cristão:
“Vivem no presente e é a partir do presente que procuram construir, mas não aceitam satisfazer-se com ele. Para eles, não há fim da história”. (in- Fonteles, Claudio – Três Momentos da Doutrina Social da Igreja – pg. 15).
Não podemos nos fechar em estruturas hierarquizadas. Não podemos nos reduzir a seres de começo, meio e fim. Devemos transcender; ultrapassarmo-nos; deixar que as surpresas aconteçam, percebendo o imperceptível. Assim, então, tudo ponderamos; ao ódio resistimos; não nos cabe a fatalidade; o bem alcançamos.




quinta-feira, 13 de junho de 2019

NÃO SE PODE TERGIVERSAR COM OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS



Em 21 de fevereiro de 2016, o então juiz federal Sergio Moro, em conversa com o procurador da república Deltan Dallagnol, diz:
“Olá. Diante dos últimos desdobramentos talvez fosse o caso de inverter a ordem das duas planejadas”.
Em 27 de fevereiro, em nova conversa com o mesmo interlocutor, pergunta:
“O que acha dessas notas malucas do diretório nacional do PT? Deveríamos rebater oficialmente? Ou pela Ajufe?”
Em 31 de agosto de 2016 reclama com Deltan Dallagnol:
“Não é muito tempo sem operação?”
Em 07 de dezembro de 2015, Sergio Moro comunica a Deltan Dallagnol que:
“Então. Seguinte. Fonte me informou que a pessoa do contato estaria incomodada por ter sido a ela solicitada a lavratura de minutas de escrituras para transferências de propriedade de um dos filhos do ex-Presidente. Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou então repassando. A fonte é séria”.
Eis trechos – e há outros tantos – publicados no domingo passado pelo site “The Intercept”.
Sem dúvida o atributo essencial da atividade judicial, a imparcialidade é garantia da cidadania e expressão do Estado Democrático de Direito, constitucionalmente consolidada no artigo 5º, inciso XXXV. Posto que o princípio é o da inafastabilidade do Poder Judiciário para a solução dos conflitos, é imperativo constitucional que o magistrado atue com imparcialidade, sob pena de mergulharmos no  arbítrio do juiz. Extravasar sentimentos pessoais a privilegiar, escancaradamente, uma das partes na controvérsia judicial posta a seu exame viola a referida imparcialidade.
Eis porque imperiosa se faz a abertura de plena investigação sobre tais fatos.
Não há de prosperar o argumento de que em se tratando de conversa privada sua interceptação e publicização invalidaria essa prova, assim apresentada. As circunstâncias mostram, ao contrário, que as revelações têm caráter político e as conversas são sobre temas públicos.
Fatos gravíssimos revelados, se se vive em sociedade autenticamente democrática, não podem ser escondidos; colocados sob o manto do silêncio para que sejam esquecidos. Tais fatos são certos. Os diálogos existiram. O teor das conversas não foi negado.
A transparência é o melhor instrumento da verdade, assim posta ao conhecimento de todos. O esquecimento sobre o conduzir-se de quem quer que seja agente público não se compraz com o necessário controle da cidadania participativa.
  O membro do Ministério Público, portanto, não pode, por qualquer meio, mancomunar-se com o julgador; aceitar qualquer tipo de instrução ou orientação advinda de juiz da causa, porque o membro do Ministério Público tem a missão constitucional relevante “de defesa da ordem jurídica e do regime democrático” – artigo 127 da Constituição Federal – pelo que é o fiscal da correta aplicação da lei, mostrando-se intolerável sua ostensiva participação em privilegiar-se de comportamento judicial, que o favoreça unilateralmente.
Os personagens dos diálogos acima, na dimensão dos fatos postos, não representam a magistratura federal nem o ministério público federal.
Não se pode tergiversar com os princípios constitucionais!


ÁLVARO AUGUSTO RIBEIRO COSTA – ex-Procurador Federal dos Direitos do Cidadão.
CLAUDIO LEMOS FONTELES – ex-Procurador Geral da República.
MANOEL LAURO WOLKMER DE CASTILHO – Juiz do Tribunal Regional Federal da 4ª Região aposentado.
WAGNER GONÇALVES – ex-Procurador Federal dos Direitos do Cidadão.


terça-feira, 4 de junho de 2019

PODERIA ESTAR SORRINDO, TAMBÉM


                       

O general chinês Wei Fenghe, ministro da defesa da China, ao tratar do que conhecido ficou como o “Massacre na Praça da Paz Celestial” – quão triste ironia – quando, segundo organizações humanitárias, cerca de 3.000 pessoas, em sua maioria estudantes e trabalhadores foram assassinados no dia 4 de junho de 1989, considerou que:
“Esse incidente foi uma turbulência política e o governo central adotou medidas para deter as turbulências, o que é uma política adequada”. (jornal Correio Braziliense – 3/6/19 – pg. 13).
Outra matéria jornalística, publicada ao lado da que se vem de registrar, tem a foto do Papa Francisco, mães e crianças ciganas à sua frente, seguida de palavras suas endereçadas à comunidade cigana no findar sua visita à Romênia:
“Carrego um fardo: o peso das discriminações, das segregações e dos maus-tratos sofridos por sua comunidade. A história nos diz que até mesmo os cristãos, inclusive os católicos, não são alheios a tanto mal”.
O Papa disse ainda:
“Peço perdão em nome da Igreja ao Senhor e a vocês pelas vezes em que, no curso da história, nós os discriminamos, maltratamos ou olhamos mal”.
É o que se tem hoje.
A autossuficiência dos que não admitem graves erros cometidos no passado; dos que, em deformado espírito de corporação, tentam justificar barbaridades acontecidas, traduzidas em torturas, desaparecimentos, mortes, tudo avalizando em quadro de necessidade da segurança como “política adequada”, para rememorarmos as palavras do general Wei Fenghe.
Essa postura é inaceitável.
A hierarquia e a disciplina jamais podem autorizar a legitimação de toda e qualquer forma de menosprezo pela vida humana.
A vida humana é sagrada porque sopro de Deus que faz o acontecer humano como ápice da criação: “Façamos o ser humano a nossa imagem e segundo nossa semelhança” está no versículo 26, capítulo 1, do Livro do Gênesis.
“Ápice da criação” não para que a mulher e o homem disponham a bel prazer de tudo o mais, criado por Deus, mas “ápice da criação” porque o Deus-Amor, porque não é solidão, necessita comunicar-se; quer amar e ser amado e, assim, oferece à mulher e ao homem esse convite à descoberta e à permanência no amor.
Agora e assim, plenas de sentido as palavras e as atitudes do Papa Francisco.
Pedir perdão.
Pedir perdão é desfazer-se da autossuficiência; abrir o coração e, então, tornar-se humilde.
Humilhar-se é abaixar-se; nivelar-se com a terra (= húmus, que é a raiz da palavra humilde) e não mais exaltar-se; segregar; zombar; violentar; mutilar; eliminar.
Dias recentes marcam, em culminância de estado evidente de desestruturação vivencial, o comportamento de casal homoafetivo feminino a torturar; mutilar, decepando o pênis, e assassinar, esquartejando brutalmente, o menino Rhuan Maycon, filho de uma delas.
Por que tanto desatino?
A ruptura.
A ruptura consigo mesmo que conduz ao desvario, que se expressa em comportamentos pessoais e coletivos de destruição.
Já não sou; já não me possuo; já não me conheço; já não me domino. Entrego-me, com outras e outros, como estou: perdido porque sem raízes.
Lis e Mel, duas gemeazinhas siamesas, unidas pelo crânio, após mais de um mês no Hospital da Criança de Brasília, acabam de ter alta hospitalar e voltam ao seu lar com sua mãe e seu pai.
Disse o Dr. Benício Oton, coordenador de neurologia do Hospital da Criança:
“Conheci a família no ano passado e nós enfrentamos tudo juntos. Na quinta-feira da última semana, quando vimos as crianças sorrindo na enfermaria, nossa equipe também sorriu”. (jornal Correio Braziliense – 4/6/2019 – pg. 22).
Sim, solidarizar-se no “enfrentamos tudo juntos” e olhar as crianças como a fonte dos sorrisos e sorrir, também, torna impossível qualquer ruptura existencial.
Rhuan Maycon, o menino de 9 anos, poderia estar sorrindo, também.  




domingo, 12 de maio de 2019

NÃO NOS É DADO DESANIMAR




“Onde há amor e sabedoria, não há temor nem ignorância. Onde há paciência e humildade, não há ira, nem perturbação. Onde há pobreza com alegria, não há cobiça nem avareza. Onde há quietude e meditação, não há afã nem divagação”. (Adm. nº 27).
Palavras presentes no escrito, conhecido como: “Admoestações”.
Admoestar, aqui, não significa recriminar.
Muito pelo contrário, admoestar vem do verbo latino “admoneo” que significa: “fazer pensar”; “chamar a atenção sobre”; “fortalecer alguém na busca de seu projeto de vida”. (Fontes Franciscanas – pg. 88).
Sim, muito provavelmente se não emanaram do punho de São Francisco de Assis, as Admoestações são sínteses de suas intervenções orientadoras para os irmãos em Fraternidade.
O amor afasta o temor porque amar é doar-se, sair de si mesmo, e o medo só acontece porque nos fechamos no que temos e somos e, assim enclausurados, invade-nos o medo de perder tudo o que conquistamos.
O amor não é conquista; é oferta do que se é porque expressão da sabedoria, que nos indica o outro não como objeto de conquista, mas como oportunidade única de encontro; crescimento mútuo; conhecimento pleno.
Como temer se não mais ignoro?
Amar é perceber e aguardar o tempo certo. Desnudar-se, então, do querer possessivo de tudo comandar. A humildade ensina-nos a aguardar porque não somos o centro do mundo, que nos rodeia e em torno de nós gravita.
Que ninguém nos rodeie, ou gravite em torno de nós, para que, despidos do egocentrismo narcisista, ofertemos nossas mãos as mãos de todos, no que se é, assim, fraterno.
Como perturbar-se, irar-se, se espero porque me reconheço necessitado dos demais.
O amor é sorriso e simplicidade porque o sorriso mostra o descontrair do coração e a face límpida, desfeita a sisudez e a dureza. E o sorriso verdadeiro simplesmente acontece porque diz da espontaneidade, da naturalidade.
Como cobiçar, como tornar-se avaro, se me conduz o sorriso?
O amor silencia para poder meditar. Cair em si para poder revelar-se porque “somos uma interioridade em busca de uma exterioridade”, como ensina o filósofo humanista Emmanoel Mounier.
Tempos acelerados, descompassados, midiáticos, barulhentos eis porque tão superficiais, secundários, medíocres, enganadores.
Sim, mas não nos detenhamos lamurientos e derrotados.
São Francisco a dizer de sua conversão e itinerância, tudo tão bem resumiu, quando afirmou:
“E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho”. (Testamento nº 6, 14).
Porque temos irmãs e irmãos, e elas e eles estão sempre ao nosso alcance, não nos é dado desanimar.

                                                       Paz e Bem.