terça-feira, 23 de outubro de 2018

"Sê íntegro"


                                               

O Papa Francisco, na sua recente Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” – “Alegrai-vos e Exultai”-, rememora expressão de que Jesus Cristo se vale ao abrir o Sermão da Montanha, para indicar aos seus discípulos e a todos nós ensinar, que a simplicidade – “os pobres no espírito...”-; que o sofrimento – “os que choram...”-; que a mansidão – “os mansos...”-; que a justiça –“os justos”-; que a misericórdia – “os misericordiosos”-; que a autenticidade - “os puros de coração”- e a paz – “os que promovem a paz”- (leia-se: Mt 5, 3-9) são valores fundamentais para o testemunho real do verdadeiro encontro da mulher e do homem, consigo mesma, consigo mesmo e de ambos com Deus.
Mas o que nos propõe, hoje, o mundo e, em nosso País, o momento político, que atravessamos?
O ódio.
O ódio que, no pano internacional, dilacera multidões de emigrantes e refugiados, enxotados porque ameaçam o status econômico de países que atingiram dito status econômico na razão direta de praticarem, e continuarem a praticar, a exploração, real ou dissimuladamente, exatamente desses mais fracos: suprema desfaçatez.
O ódio que, no plano nacional, acometeu todas e todos quantos, num primeiro momento, foram tomados de profunda decepção ao ruir do projeto político que chegou a acalentar medidas reais de distribuição de riqueza, de acesso dos mais desafortunados a patamar acima na escala social, mas que se deixou seduzir e sucumbiu ao jogo do poder pelo poder; da ambição pela ambição.
O ódio que, ainda no pano nacional, expressou, pondo às claras, preconceitos e ressentimentos abafados porque o diferente de mim eis que mais pobre do que eu; eis que homossexual, e não hétero, como eu, passaram a conviver no meu espaço.
Ora, a democracia é, justamente, o melhor de todos os regimes políticos porque não promove espaços privatistas, de usufruto condominial segregador, mas impulsiona a convivência dos múltiplos espaços, estimula o respeito a todos os espaços nas diferenças peculiares de cada qual. Se se enfatizou, desmesuradamente, o grito dos discriminados, o caminho não está em deslegitimá-los, mas mostrar-lhes que o grito desmesurado é, também, preconceito embutido a incidir em igual viés de ódio discriminatório.
O ódio é o alimento dos medíocres e dos superficiais.
Porque medíocres e superficiais são levados – caniços ao vento – para aqui, para lá, para acolá, na dança das fake news (= notícias falsas).
Medíocres e superficiais não têm raízes porque não intuem; não consideram; não contemplam; não se põem a agir, ou seja, não intuem porque não se abrem ao que surge; abrindo-se, necessariamente analisam e, então, consideram; considerando, contemplam porque se sintonizam com o que surge e sintonizados, então assim conscientes, agem responsavelmente.
Recordo, aqui, expressiva passagem do Gênesis:
“Abrão tinha noventa e nove anos, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: Anda na minha presença e sê íntegro”. (Gn 17, 1)
Aí está: que sejamos íntegros.
Ser íntegro é não dividir-se; não se deixar levar pelo detalhe, pelo superficial, pelo secundário.
Ser íntegro é conhecer-se, sabendo que esse conhecimento só se alcança na relação com todas e com todos os demais, sem distinção, e com Deus.
O nosso tempo é de desintegração.
Quem quer que queira isso incentivar, como mote para vitória política, ou qualquer outro mote, está fadado à desintegração.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

ELEIÇÕES


Algumas pessoas pedem-me expresse meu posicionamento sobre o tema: eleições.
De plano, é fundamental que eleições aconteçam. Elas propiciam o necessário conhecimento sobre a personalidade, o compromisso, enfim o modo de ser, pessoal e comunitário, de quem se candidata, apesar das imperfeições do processo eleitoral, traduzidas, dentre outras, no excessivo número de partidos – bastar-nos-iam 3 ( três ) agremiações partidárias: uma à esquerda; outra à direita e outra ao centro – excessivo número que impede a distribuição equitativa do tempo destinado à propaganda eleitoral e ao recebimento de valores monetários destinados ao fundo partidário. Urge a adoção de cláusula de barreira, portanto.
Eleições ensejam o debate.
É certo que o debate muitas das vezes apequena-se, faz-se medíocre e superficial, até cômico, mas que as pessoas sempre possam se expressar, e jamais sejam caladas. Que aqueles que defendem soluções autoritárias, ditatoriais, do pensamento uniforme, venham a público e insiram-se no respeito à divergência. Aprendam que é no incessante dialogar que os gestos tresloucados da violência vão, paulatinamente, definhando até que se minimizem.
O Brasil, hoje e sempre, quer valores humanistas. Valores humanistas assentam-se na dignidade da pessoa. A dignidade da pessoa põe-se no abolir qualquer discriminação. Que não se discrimine o feto, o recém- nascido, a criança, o jovem, o adulto e o idoso. Que a mulher esteja, plenamente, lado a lado com o homem. Desapareça qualquer laivo de inferioridade na relação mulher e homem no plano pessoal, no plano familiar e no plano social. Que ninguém, ninguém mesmo, seja motivo de escárnio, ódio e perseguição, por sua escolha no modo de ser e viver.
Que o acesso aos bens materiais, intelectuais e culturais a todas e a todos se possibilite e, assim, cada uma e cada um tenha, porque aptas e aptos foi-lhes franqueada, a oportunidade do integral crescimento nas dimensões acima colocadas. Eis o sentido perfeito do que seja educação. Educar é fazer extrair, ou seja, o educando não é marionete. É educado justamente para que construa sua história, pessoal e coletivamente, assumindo decisões conscientes, livres e fundamentais porque calcadas nos valores maiores de competência, honestidade e seriedade voltados ao bem comum.
O povo, circunscrito ao vício da mera e rápida informação, não é povo; é bando amorfo, objeto de contínua manipulação.
Os valores humanistas, de que estou a tratar, repudiam o corrupto e a corrupção.
O Papa Francisco, acertada e precisamente, diz:
“É justamente esse triunfalismo, nascido de sentir-se medida de todo juízo, que lhe dá a vaidade para rebaixar os outros à sua medida triunfal. Explico: em um ambiente de corrupção, uma pessoa corrupta não deixa crescer em liberdade. O corrupto não conhece a fraternidade ou a amizade, só a cumplicidade. Para ele, não vale nem o amor aos inimigos nem a distinção que está na base da antiga lei: ou amigo ou inimigo. Move-se nos parâmetros de cúmplice ou inimigo. Por exemplo, quando um corrupto está no exercício do poder, implica sempre os outros em sua própria corrupção, rebaixa-os à sua medida e os faz cúmplices de sua opção de estilo. E isso em um ambiente que se impõe por si mesmo em seu estilo de vitória, ambiente triunfalista, de pão e circo, com aparência de senso comum no juízo das coisas e de sentido de viabilidade nas opções variadas. Porque a corrupção implica esse ser medida, por isso toda corrupção é proselitista”. ( leia-se: Corrupção e pecado: algumas reflexões a respeito da corrupção – pg. 32/33, grifos do original).
E, definitivo, acentua:
A corrupção não é um ato, e sim um estado, estado pessoal e social, no qual a pessoa se acostuma a viver. Os valores ( ou desvalores ) da corrupção são integrados a uma verdadeira cultura, com capacidade doutrinal, linguagem própria, modo de proceder peculiar. É uma cultura de pigmeização, que insiste em convocar adeptos para rebaixá-los ao mesmo nível da cumplicidade admitida e corrupta. Essa cultura tem um dinamismo duplo: de aparência e de realidade, de imanência e de transcendência. A aparência não é o surgir da realidade por veracidade, e sim a elaboração dessa realidade, para que vá se impondo em uma aceitação social o mais geral possível. É uma cultura do diminuir: diminui-se realidade em prol da aparência. A transcendência vai ficando cada vez mais aquém, é quase imanência, ou no máximo uma transcendência de botequim. O ser já não é custodiado, e sim maltratado por uma espécie de desfaçatez pudica. Na cultura da corrupção, há muito de desfaçatez, embora aparentemente o admitido no ambiente corrupto esteja fixado em normas severas de cunho vitoriano. Como disse, é o culto aos bons modos que encobrem os maus costumes. E essa cultura se impõe no laissez-faire do triunfalismo cotidiano”. ( livro citado – pg. 39/40, grifos do original e meus).
As eleições, que chegam, bem podem servir para que, concretamente, iniciemos processo de renovação política em nosso Brasil.
É, portanto, indispensável que priorizemos novas pessoas.
Que não queiram profissionalizar-se como políticos; que não queiram transformar a política em espaço ocupado por familiares; e que repudiem a adoção das nefastas práticas do compadrio e do nepotismo.
Novas pessoas que, com propostas objetivas e claras, afastem-se das promessas mirabolantes e vazias, meros artifícios sedutores na captação de votos.
Antes de votar, que conheçamos a história de vida da candidata e do candidato.
É o que me ponho a fazer, presentemente.
E para não ficar restrito aos parâmetros, que neste artigo apresento, como disse escrito por sugestão advinda de leitoras e leitores, mas posicionando-me, desde já, por pessoa que considero preenche os requisitos que expus, submeto à consideração e à análise de todas e de todos, o nome do Professor Marcelo Neves, candidato à vaga de Senador pelo Distrito Federal.

                                        Paz e Bem.




domingo, 29 de julho de 2018

CENÁRIOS


                                                         
Muito bom de se ver a solidariedade internacional para resgatar professor e seus alunos, impossibilitados de sair de caverna, na Tailândia.
Melhor, ainda, o passo seguinte dado pela quase totalidade deles: recolherem-se para meditar, para interiorizar, para que aflore a espiritualidade em cada qual.
Melhor, ainda, esse comportamento porque significa saber que a obra da salvação do grupo não se circunscreveu, unicamente, ao engenho humano, por sua técnica, mas isso transcendeu e o que se conseguiu, conseguiu-se com fé.
E a fé, essa palavra tão pequenina que se perfaz em duas simples letras, é a certeza de que nós, mulheres e homens, não nos bastamos a nós mesmos.
A fé é a resposta concreta posta no sair de si, no reconhecimento de nossa minoridade, a resposta a nos entregarmos, como o recém-nascido se entrega no regaço materno, ao Deus-Amor.
Em sua recente Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate sobre o chamado à santidade no mundo atual, o Papa Francisco, com muita precisão, coloca:
“Ainda há cristãos que insistem em seguir outro caminho: o da justificação pelas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz em uma autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito no caminho do amor, apaixonarem-se por comunicar a beleza e a alegria do Evangelho e procurarem os afastados nessas imensas multidões sedentas de Cristo”. (Gaudete et Exsultate nº 57 – pg.33).
A vontade humana passa a ser a senhora de tudo que diga respeito à mulher e ao homem.
Descortina-se, agora, cenário outro.
Na absolutização do eu e na vulgaridade sedutora da expressão do belo, limitada à superabundância carnal, repetem-se notícias a envolver procedimentos cirúrgicos, que redundam em morte de pacientes. Profissional da medicina há, que não se opõe, antes aprecia, porque não repudia o tratamento midiático, que lhe é dado, ser chamado de: “Dr. Bum-Bum.
Nessa espiral da coisificação da mulher e do homem, a autorreferência conduz-nos à acédia, à rotina, à violência contra si mesmo e contra os outros. A insensibilidade reina.
Torno ao Papa Francisco:
“Por outras palavras, no meio da densa selva de preceitos e prescrições, Jesus abre uma brecha que permite vislumbrar dois rostos: o do Pai e o do irmão. Não nos dá mais duas fórmulas ou dois preceitos; entrega-nos dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus, que se reflete em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus. De fato, será com os descartados desta humanidade vulnerável que, no fim dos tempos, o Senhor plasmará a sua última obra de arte”. (Gaudete et Exsultate nº 61 – pg. 34/35).
Nesse julho, que se finda, findou a Copa do Mundo de futebol.
Esqueçamos a estrutura corrupta da “cartolagem”, ou seja, dos impávidos administradores do futebol nacional e mundial, e o terceiro cenário mostra-nos a “seleção” brasileira de futebol.
Tudo converge para um homem de 26 anos, tratado como criança por sua família, seu “staff”, e por grande parte da mídia esportiva, supervalorizando-o.
Temos um boneco que é fonte de vultosas rendas para todo o esquema, que o manipula. Então, o boneco atirou-se ao chão, tantas e tantas vezes, rodopiou, simulou.
Sem quem o orientasse, sequer “à beira do campo”, sucumbiu e a dita “seleção” sucumbiu junto.
Torno, e conclusivamente, ao Papa Francisco:
“Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião. (Gaudete et Exsultate nº 167 – pg. 79).

                   

quinta-feira, 14 de junho de 2018

"AO ENTARDECER DESTA VIDA, EXAMINAR-NOS-ÃO NO AMOR"


        

“Nisso, um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus, porém, lhe disse: Guarda a espada na bainha! Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão”. (Mt 26, 51-52).
Assim o evangelista Mateus narra episódio acontecido quando da prisão de Jesus no Monte das Oliveiras.
Violência não conduz a nada de positivo. Antes, degrada-nos, aviltando nossa condição humana.
“Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão”, ou seja, as pretensas soluções, calcadas na violência, têm por fim a própria morte.
Compreende-se bem, por esse evangélico ensinamento, porque as intervenções ditatoriais estão condenadas ao fracasso; ao fim inexorável, ainda que perpassem décadas no poder, décadas de enorme retrocesso porque todas as intervenções ditatoriais aniquilam qualquer possibilidade humanista de promoção integral da mulher e do homem, coisificados em objetos de tortura e morte, vez que tudo está centralizado no paroxismo da segurança do Estado.
Com efeito, o obscurantismo, o medo, o corruptível submeter-se ao autocrático comando impregnam, declarada ou subrepticiamente, a convivência diária.
Não há mais valores absolutos. Tudo se volatiliza. Ideais são desfeitos. A mística, o buscar ultrapassar-se para o bem comum desaparece. Em seu lugar, herdeiros do arbítrio são os manipuladores, os dançarinos gestuais de poses estudadas, que se afinam com os arrogantes da excelência, e pronto: eis o cenário da perplexidade; da desesperança; eis o terreno fértil para que surjam os pseudo salvadores da pátria, da lei e da ordem, agora dotados de discursos, mas de discursos carregados de preconceitos machistas e raciais.
Dissemina-se, também, a idolatria do personagem único em polo oposto.
Atitude, por igual, deletéria.
O verdadeiro líder não é aquele que se faz em perene verdade pessoal.
Muito pelo contrário, o verdadeiro líder não é o comandante inquestionável, mas o mensageiro que, justamente, por apresentar uma mensagem de que é porta voz porque soube ouvir a tantas e a tantos, e não ditar uma ordem, propicia aos destinatários que também se sintam encorajados, porque habilitados, a serem mensageiros, que lhe sucedam.
Iniciei esta reflexão com palavras do evangelista Mateus.
Vou encerrar a reflexão com palavras do Papa Francisco, sobre outro trecho do Evangelho de Mateus, mas com plena pertinência ao aqui tratado, até porque se fazem, tais palavras, em passos seguros e concretos que podemos, e devemos, dar para que não nos domine inaceitável omissão.
“Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25, 31-45). De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudamos a tirar a dúvida, que faz cair no medo e muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivermos junto de quem está sozinho e aflito; se perdoarmos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivermos paciência a exemplo de Deus que é tão paciente conosco; enfim se, na oração, confiamos ao Senhor nossos irmãos e nossas irmãs. Em cada um destes mais pequeninos está presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de modo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga... a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as palavras de São João da Cruz: Ao entardecer desta vida, examinar-nos-ão no amor”. (leia-se a Bula Misericordiae Vultus – pg. 11).

                                                   Paz e Bem.


                                                  

terça-feira, 1 de maio de 2018


                                             EMANUEL

Há vídeo recente, mostrando o Papa Francisco em encontro com crianças em uma paróquia de Roma. Uma das crianças, chorando, não consegue apresentar sua pergunta.
Que faz o Papa Francisco?
Chama-a, delicada e seguidamente, dizendo: “Emanuel venha para mim”.
Não se desinteressa pelo menino; não o exclui. Chama-o para si, acolhendo-o, e o abraça, ambos conversando ao pé do ouvido.
E que faz, depois, Francisco, quando a criança retorna a seu lugar?
Para o público diz que pediu permissão a Emanuel para a todos dizer da pergunta, que as lágrimas de Emanuel represavam.
O Papa pede permissão a uma criança para veicular o que seu coração juvenil embargava. Que atitude tão concreta de respeito, que gesto tão real e significativo de compromisso com a dignidade da vida humana, não importa se ainda tão juvenil.
Permissão dada, eis a pergunta de Emanuel: queria saber se seu papai, que falecera recentemente, estava no céu porque era ateu.
Francisco expõe: sim, o papai era ateu, mas, e a despeito de sua opção, batizara seus quatro ( 4 ) filhos. Prosseguiu dizendo que para o fiel católico fácil é batizar seus filhos, mas não para aquele que não crê. E, dirigindo-se ao público presente, indagou: Deus seria capaz de manter longe de Si, um papai assim?
Em uníssono o público diz: não.
Francisco, dirigindo-se a Emanuel, disse: “eis a resposta”, porque Deus também é Papai; tem o coração de Papai e, por isso, está orgulhoso de seu papai: um homem bom.
Concluiu Francisco: “fala com teu papai; reza por teu papai”.
Quanta simplicidade e, portanto, quanta sabedoria nesse homem, o Papa Francisco, para nós, mulheres e homens, crentes e não crentes, nessa época de mudanças que, por tal razão, nos torna inseguros por decepção, por revolta, por tristeza.
O caminho, nos aponta Francisco, é nos desfazermos dos preconceitos de todos os matizes, para acolher quem está fragilizado. Conviver nas diferenças, chamando com delicadeza, pondo-se à escuta, posicionando-se, concreta e objetivamente, sem proselitismos, sem parti-pris: simplesmente, revelando-se como se é: seres vocacionados ao amor.
Outro traço tão expressivo nesse episódio. O Papa Francisco não faz de si o único a decidir; não se apresenta como a voz solitária e infalível a determinar a resposta a ser dada.
Não!
O Papa Francisco convida a assembléia de fiéis para assumir a resposta e, resposta dada, a ela adere.
Assim é o verdadeiro pastor, o verdadeiro líder. Apresenta o quadro como traçado por quem busca o caminho; apresenta-o à comunidade, questionando-a; e acompanha a resposta dada. É, portanto, fiel na narrativa; questiona, apropriadamente, o que deve ser questionado; e faz-se seguidor da resposta comunitária.
Episódio verdadeiramente marcante para meu viver porque há de ser meu guia pelas tantas estradas da vida, que percorro.
A propósito: Emanuel, o nome do menino, significa: “Deus conosco”.

                                            Paz e Bem.
   
  

segunda-feira, 5 de março de 2018

A MÚSICA



Acabo de ouvir, não de meramente escutar, que é tão superficial, acabo de ouvir Lucio Dalla, cantando Caruso.
É entardecer de domingo e, em torno e por sobre mim, pássaros também estão cantando.
A música, quando bela e plena de significado, une as criaturas entre si, e com o Criador.
Além de unir, a música, encantando-nos, docemente conduz-nos ao infinito porque enquanto a ouvimos, o sentimento que nos envolve é de que ultrapassamos os limites do tempo e do espaço.
O mundo, hoje, está doente.
Doente porque enclausurado em poder mais, possuir mais, prazer mais.
Essa voracidade quantificadora estreita-nos.
Mulheres e homens medíocres, em todos os quadrantes, porque a mediocridade é a expressão do superficial e do efêmero.
Agora, Ellis Regina e Tom Jobim, tão a propósito, em “Águas de Março” e a narrativa do cotidiano humano com tudo aquilo que o cerca.
Se é certo que as “Águas de Março fecham o verão”, todavia nada se fecha para sempre porque há sempre “promessa de vida no teu coração”.
É por aí: nós todos, mulheres e homens, somos “promessa de vida” e, por isso, existimos.
Não existimos para nos dissolvermos, nos consumirmos, nos metamorfosearmos.
Não existimos para sermos reduzidos a objetos de manipulação posta em esquemas montados, tão pouco para nos travestirmos em cenários coisificados a provocar estardalhaços, nem para nos reduzirmos a caricaturas inexpressivas da produção midiática.
Existimos, por isso que somos, para que o amanhã já se perceba, hoje. Portanto, para que o futuro não se faça longínquo, mas germine no presente, e construamos nossa história, incessantemente.
Não há o fim da história enquanto vida houver.
É o que se chama: esperança.
Esperança não é, passivamente, aguardar. Também não é, passivamente, desejar.
Esperança, porque é “promessa de vida no teu coração” é compromisso real, concreto, verdadeiro que nos dá sentido e, nos dando sentido, nos faz viver. Viver, portanto, é fazer sentido.
Faço sentido, então, mantendo-me íntegro no que sou e no que faço e, na integridade do que sou e do que faço, lugar não há para concessões utilitaristas, nem de fuga.
Anoitece. O sol se põe e acontece o silêncio onde estou, mas a harmonia da música, essa, permanece.






sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A DIMENSÃO DO SER

                                   

Lê-se no mais antigo escrito do Novo Testamento, que é a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, em exortação final para aquela comunidade:
... examinai tudo e guardai o que é bom”.  (1Ts 5, 21).
É do que, na verdade, necessitamos, principalmente diante da voracidade tecnológica, que tudo reduz ao acelerado imediatismo. Incessantemente conectados, envolvidos no turbilhão dos acontecimentos, anestesiados na superficialidade do que é noticiosamente produzido, perdemos a dimensão do ser.
Perdida a dimensão do ser, a política, que é a expressão da afirmação do bem comum, descamba para o jogo do poder pelo poder, disseminando as mais variadas formas de corrupção.
Sobressai a manipulação. Políticos, consorciados com grandes redes de comunicação social, conspurcam a representação popular. Satisfazem-se todos na farsa da democracia formal porque inexiste qualquer compromisso comunitário e não acontecem atitudes reais e concretas de promoção dos mais necessitados em quadro de acesso amplo à educação e à saúde: permanecem esses, os mais necessitados, na condição de dependentes das benesses oficiais.
Perdida a dimensão do ser, a mulher e o homem degradam-se.
Se eu não tenho o meu ser, como oferecê-lo? Como ser proposta de vida para quem amo? Como amar?
No meu vazio existencial, engano-me buscando preenchê-lo comigo mesmo.
Assim, tantos os desencontros, tantos os abandonos, tanta a violência, tanta a morte, e tudo isso, no vazio do noticiário, meramente sensacionalista, acaba, após espasmos de nossa emotiva postura, a letargiar-nos num simples dizer: “vida que segue”.
Sim, a vida há de seguir, mas jamais como demonstração de conformismo, que é o alimento do inevitável.
A vida há de seguir como o desafio que nos desperta, que nos provoca, que nos move.
Ser livre é desafiar-se, constantemente, para assumir condutas na dimensão do espaço em que vivemos, não importa se amplo ou reduzido esse espaço, mas assumir condutas que nos revelem no que somos, e como somos, e assim rompendo a estagnação da mesmice castradora, pormo-nos em missão para o encontro, que dissipa o que nos distancia; para a construção do que vale ser construído: a dignidade da mulher e do homem em todas as etapas de sua vida.
Retorno a Paulo. À comunidade dos Gálatas, ele disse:
“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão”. (Gl. 5, 1).
Sim, e com todo o respeito às minha irmãs e aos meus irmãos ateus e agnósticos, a palavra espírito significa: sopro. “Deus é espírito” afirma o evangelista João, no Capítulo 4, versículo 24, desse seu escrito.
O sopro gera o movimento. O movimento rompe a inércia. Rompida a inércia desabrocha a vida. A vida faz nascer a liberdade. E a liberdade é o caminho do ser para que se possa sempre ser.