domingo, 9 de junho de 2013

Estatuto do Nascituro

                             
Correto que o legislador brasileiro empenhe-se, em linha de coerência, por dedicar ao ser humano, nas diversas etapas de sua cronologia, que são marcadas por clara necessidade de proteção, estatutos próprios a cumprir com esse fundamental objetivo: o cuidado e a preservação da vida.
Digna de elogios, portanto, a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Estatuto do Idoso.
A completar esse quadro normativo, a imperiosa exigência de se ter o Estatuto do Nascituro.
Com efeito, o nascituro não é “amontoado desconexo de células”.
O avanço da ciência médica, que até consolida novo ramo da medicina, dedicado exclusivamente à saúde do feto, do nascituro portanto, que no exato momento da fecundação – a união dos gametas masculino e feminino – tem definido, para sempre, o seu código genético e, por si só, inicia, dentro do ventre materno, mas não pelo ventre materno condicionado, processo de formação autônomo de seus sistemas vitais, o avanço da ciência médica confere ao nascituro, em eloquente demonstração tecnológica advinda da ultrassonografia, sua natureza humana.
Repito: o acompanhamento mensal, feito por qualquer obstetra, no desenvolvimento do nascituro, à luz dos procedimentos tecnológicos hoje tão em voga, constatando a paulatina formação de todos os seus sistemas vitais e expressões corpóreas, por óbvio impossibilita a afirmação, que assim atinge as raias do ridículo, de que se tem: “amontoado desconexo de células”.
Portanto, em perfeita sintonia científica, o artigo 3º, do Estatuto do Nascituro, juridicamente bem preceitua que:
“Art. 3º: O nascituro adquire personalidade jurídica ao nascer com vida, mas sua natureza humana é reconhecida desde a concepção, conferindo-lhe proteção jurídica através deste estatuto e da lei civil e penal.”
Isso estabelecido, sem sobressaltos ou incoerências, alinha-se perfeitamente o que prescreve o artigo 13 ao texto principiológico, que venho de contemplar no retro transcrito artigo 3º.
Está no artigo 13:
“Art. 13: O nascituro concebido em um ato de violência sexual não sofrerá qualquer discriminação ou restrição de direitos, assegurando-lhe, ainda, os seguintes:
I – direito prioritário à assistência pré-natal com acompanhamento psicológico da gestante;
II – direito à pensão alimentícia equivalente a 1 ( um ) salário mínimo, até que complete dezoito anos;
III – direito prioritário à adoção, caso a mãe não queira assumir a criança após o nascimento.
Parágrafo único: Se for identificado o genitor, será ele o responsável pela pensão alimentícia a que se refere o inciso II deste artigo.
Tratar o artigo 13 como “bolsa estupro” é descarregar, absurdamente, todo o preconceito contra a mulher violentada e o nascituro em demonstração claríssima de sociedade machista agressiva, virulenta e desumana, por corifeus, travestidos ou às claras, desse tipo segregador de sociedade.
O artigo 13, no mesmo patamar, dedica à gestante e a seu filho total acolhida e proteção na prioridade conferida à assistência pré-natal e ao acompanhamento psicológico. Assegura-lhes apoio financeiro. À mulher, deixa-a livre para exercer, se o desejar, a maternidade, nessa situação, mas preserva a vida do nascituro, encaminhando-o à adoção.
Por fim, o estuprador, sem que isso signifique, obviamente, levá-lo ao convívio com a mulher, que vitimou, e seu filho, e também não lhe conferindo qualquer direito, a propósito, impõe-se-lhe a obrigação pecuniária, de par com outras, ainda de natureza civil, e a responsabilização criminal.
É cabalmente insano falar-se de “bolsa estupro”, como insano é o viés, reitero, de odioso machismo a inspirar, nesse passo, os detratores do Estatuto do Nascituro.
Importa que construamos e estabeleçamos a sociedade humanista.
Importa que fixemos e vivamos palavras plenas de sabedoria do filósofo humanista Emmanuel Mounier:
“Pela experiência interior a pessoa surge-nos como uma presença voltada para o mundo e para as outras pessoas, sem limites, misturadas com elas numa perspectiva de universalidade. As outras pessoas não a limitam, fazem-na ser e crescer. Não existe senão para os outros, não se conhece senão pelos outros, não se encontra senão nos outros. A experiência primitiva da pessoa é a experiência da segunda pessoa. O “tu” e, adentro dele, o “nós”, precede o “eu”, ou pelo menos acompanha-o.”
( leia-se: O Personalismo – pg. 45-46 )
E, definitivo, arremata o filósofo:
“Quando a comunicação se enfraquece ou se corrompe perco-me profundamente eu próprio: todas as loucuras são uma falha nas relações com os outros – o alter torna-se alienus, torno-me também estranho a mim mesmo, alienado. Quase se poderia dizer que só existo na medida em que existo para os outros, ou numa frase-limite: ser é amar.

(leia-se: O Personalismo: pg. 46).

domingo, 5 de maio de 2013

Mais cuidar e menos gerir


             O noticiário vira e mexe, e a cada fato que ele trata de espetacularizar, instiga o nosso componente emocional a ponto de nos deixarmos conduzir exclusivamente por ele – seja pelo noticiário, seja pelo emocional, dá no mesmo – arrastando-nos a soluções simplistas, superficiais, que menosprezam a dignidade da pessoa.
Refiro-me a duas situações, assim tratadas: a menoridade penal e a internação compulsória de dependentes da bebida ou da droga.
Políticos sagazes, e na proximidade do calendário eleitoral, bradam, ora pela redução da maioridade, ora pelo aumento das sanções aos menores infratores.
Soluções de consumo fácil, funcionalistas, mas que estão a esconder a inoperância da gestão centrada em si mesma – a gestão pela gestão -, que abdica de por em prática os valores humanistas da acolhida, do envolver-se com tantas e tantos que estão à margem do usufruir os bens mais elementares do correto viver.
Com efeito, reduzir a idade para que adolescentes sejam criminalizados, ou que padeçam mais tempo nos depósitos em que são enjaulados, é demagogia barata, para encobrir, repito, “a inoperância da gestão centrada em si mesma”.
Por que os governos, sejam eles municipais, estaduais e federal, não priorizam a educação?
Por que os governos, sejam eles municipais, estaduais e federal, não priorizam a formação da família estável?
Priorizar a educação, dentre possíveis perspectivas, é, concretamente:
- garantir que o professor, em regime de oito ( 8 ) horas diárias, dedique-se, totalmente, a uma e única escola, porque, assim, continuadamente, aperfeiçoa-se e, assim, continuadamente, não é mero e burocrático repassador de surrados esquemas – gestor -, mas formador de cidadania ativa para os seus alunos, pelo conhecimento e dedicação empenhada com alegria e satisfação. É ser pastor: o que cuida, o que está atento, o que promove o desenvolvimento integral das aptidões válidas e úteis à formação pessoal e comunitária das crianças, jovens e adultos que lhe são confiados.
Priorizar a família estável, dentre possíveis perspectivas, é:
- garantir o mesmíssimo reconhecimento tanto à mulher, quanto ao homem, em qualquer plano em que se situem – conjugal, educacional, laboral, econômico, social, esportivo – de modo a que se constitua, solidamente, relacionamento de inestimável companheirismo, embasado na entrega, sem subterfúgios ou máscaras, de um para com o outro – não há um, sem o outro – do que naturalmente decorre a filiação, natural ou adotiva, compondo-se vínculo íntimo e profundo de amor – a conjugalidade, a maternidade, a paternidade e a filiação – vínculo esse que, por certo, dissipa a criminalidade juvenil, e mesmo a adulta.
Vivenciadas essas realidades – prioridade à educação e prioridade à família estável – por certo as medidas, ditas salvadoras, perdem todo o sentido.
Quanto à internação compulsória dos dependentes da bebida, ou da droga, tem-se, mais uma vez, o rosto insensível do gestor.
Que sejam todos recolhidos, pela polícia, em camburões; que sejam todos submetidos a tratamento de exclusiva desintoxicação, é o que se ouve, e vê.
Tal metodologia, por óbvio, trata as pessoas, em tais situações, como marginais; massa sem forma, nem figura, mera massa manobrada na perspectiva de resultado estatístico, quem sabe para escusos propósitos de obtenção de verbas conveniadas e, de novo, fins eleitoreiros.
Todas e todos estejam no grau em que se encontrem da capacidade de autodeterminarem-se, hão de ser conduzidos para que se sintam diante de opção de mudança de vida, que lhes é oferecida; hão de ser acolhidos, fraternalmente; tratados na sua dimensão integral, pessoal e própria, o que não se concilia com métodos de eliminação da vontade individual, o que não se concilia com a adoção de tratamento exclusivamente médico, mas abra-se espaço para a descoberta, ou a redescoberta, do componente espiritual em seu ser, sem qualquer proselitismo religioso.
O mal de nossos dias está, ironicamente, na solidão coletiva do que gere.
O bem possível está, certamente, na doação comunitária do que cuida.  

         

quarta-feira, 3 de abril de 2013

FRANCISO


       Eu, como tantas e tantos, mulheres e homens das mais variadas gerações, experimentamos alegria, entusiasmo, sentimentos necessários a quem permanece no caminho, pela eleição do papa Francisco.
Certo é que a mídia, nacional e internacional, privilegiando o visual, compraz-se em fotografar e filmar atitudes, sem dúvida válidas, do Papa Francisco, pondo em relevo sua simpatia e simplicidade.
Considero, contudo, que é nosso dever conhecermos mais adequada, e profundamente, o Papa Francisco.
Importa, para isso, que leiamos e meditemos sobre suas alocuções.
Detenho-me, então, no que nosso Papa disse em sua primeira Audiência Geral, na Praça de São Pedro, na véspera das celebrações dos dias santos, na quarta-feira passada, dia 27.
“Viver a Semana Santa seguindo Jesus, quer dizer aprender a sair de nós mesmos para ir ao encontro dos outros, para ir para as periferias da existência, movermo-nos para os nossos irmãos e as nossas irmãs, sobretudo aqueles mais distantes, aqueles que são esquecidos, aqueles que têm mais necessidade de compreensão, de consolação, de ajuda. Há tanta necessidade de levar a presença viva de Jesus misericordioso e rico de amor”
Sim, necessitamos nos mover e abraçar os que estão “nas periferias da existência”.
Os que ali estão – nas periferias da existência – porque, marcados por dores profundas, refugiam-se no ceticismo ou no cinismo; na dilaceração da própria identidade, conduzindo-se, sob os mais variados matizes, produzidos ao sabor das conveniências do momento, à ilusão de travestir o efêmero em definitivo.
“Compreensão, consolação, ajuda” indica-nos o Papa Francisco.
Compreender para que não nos afastemos dessas irmãs e desses irmãos; consolar para que delas e deles sejamos os próximos; ajudar para que com elas e com eles partilhemos nossas vidas. Eis, para mim, a comunhão fraterna.
A comunhão eucarística se expressa na comunhão fraterna.
Viver a Semana Santa é entrar sempre mais  na lógica de  Deus, na lógica da Cruz, que não é, antes de tudo, aquela da dor e da morte, mas aquela da doação de si, que traz a vida. É entrar na lógica do Evangelho. Seguir, acompanhar  Cristo, permanecer com Ele exige um “sair”. Sair de si mesmo, de um modo cansado e rotineiro de viver a fé, da tentação de fechar-se nos próprios padrões, que terminam por fechar o horizonte da ação criativa de Deus.”
Tem plena razão o Papa Francisco no que acaba de nos dizer.
O êxodo, que não é fuga, mas encontro, porque saio de mim para o meu “outro eu”, que é o meu próximo ou, a melhor dizer, de quem eu me aproximei, de quem eu me tornei irmão, porque não está mais fora de mim, longe de mim, mas é, verdadeiramente, meu “outro eu”.
Jesus, olhando as multidões, não as manipulava com teatralidades, cenas de efeito ou arroubos demagógicos.
Costumeiramente, sentava-se – o que quer dizer: parava para, centrado nas pessoas, considerando-as em primazia, ensinava-as -; costumeiramente, caminhava – o que quer dizer: punha-se em missão, evitando a repetição insossa das fórmulas, das regras e dos ritos -.
Sentar e caminhar. Acolher e continuar.
Continue Papa Francisco, continuemos todos.

                                                     Paz e Bem.



    
        

domingo, 17 de fevereiro de 2013

PAPA BENTO XVI


          O noticiário, em enxurrada, sobre a positiva e determinada atitude do Papa Bento XVI, como tudo que se faz, em enxurrada, impossibilita a serena avaliação sobre seu comportamento.
          Velhos, e mal abordados, temas são avivados; midiáticas vozes são chamadas a, em uníssono, repetirem a desgastada tecla: líder conservador, retrógrado, fechado em esquema pensamental ultrapassado e, assim, arrastando a Igreja católica a descompasso em relação ao mundo.
          Repito: a enxurrada leva tudo, de roldão; compraz-se no incapacitar a análise racional e, portanto, fundamentada.
          O Papa Bento XVI não é nada disso com que o carimbou o esquema midiático.
          Eu me permito, aqui, sugerir aos que têm diante dos olhos o que escrevo, a leitura de “Luz do Mundo – o Papa, a Igreja e os sinais do tempo”, proveitosíssimo diálogo do Papa Bento XVI, porque o revela tal qual é, com o arguto jornalista Peter Seewald.
          Destaco, de todo modo, alguns trechos a embasar meu posicionamento.
          O Papa Bento XVI bem apresenta o significado do ser cristão, ao dizer:
“Toda a minha vida sempre foi atravessada por um fio condutor, este: o cristianismo confere alegria, alarga os horizontes. Definitivamente, uma experiência vivida sempre e somente contra seria insuportável”. ( livro citado – pg. 27 ).
Por isso, e com coerência, linhas adiante disse na entrevista:
“Hoje, sobretudo, o Papa tem o dever de lutar em toda parte pelo respeito aos direitos humanos, como íntima conseqüência da fé no fato de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e que tem uma vocação divina. O Papa tem o dever de empenhar-se pela liberdade, contra a violência e contra as ameaças de guerra. Do profundo de seu coração, está obrigado a lutar pela conservação do criado, a opor-se a sua destruição.” ( livro citado – pg. 37 ).
         O alegrar-se só é possível, realmente, quando abrimos horizontes em nossa existência, porque a tristeza advém do fechamento, da obliteração, da desunião. A liberdade abre-nos os horizontes e nos impulsiona ao outro – alteridade -, vocacionados todos à comunhão, porque o ato de amar sempre é proposta à integração, jamais imposição cuja conseqüência fatal é a desintegração, realidade vivida por tantas mulheres e tantos homens de nosso tempo.
        Tornando ao Papa Bento XVI, quando questionado por Seewald a respeito do tema da pedofilia, deixou por bem claro que:
“O senhor tem razão é um pecado muito grave se alguém que, na realidade, deveria ajudar as pessoas a encontrar o caminho para Deus, alguém a quem se confia uma criança, um adolescente, a fim de encontrar o Senhor, ao contrário, abusa deles e os distancia do Senhor. Dessa forma, a fé, como tal, fica desacreditada, a Igreja já não pode colocar-se de maneira convincente como anunciadora do Senhor. Tudo isso nos perturbou, ainda hoje me convulsiona interiormente.” ( livro citado – pg. 43 ).
Para concluir:
“Ademais, faz parte também da verdade o fato de que devo punir quem pecou contra o verdadeiro amor.”  (livro citado – pg. 44).
Como falar-se de atitudes de acobertamento do Papa Bento XVI?
Exposto em raciocínio límpido e seguro, o Papa Bento XVI trata dos chamados temas atuais com primorosa argumentação. Disse:
“Quando, por exemplo, em nome da não discriminação quer-se constranger a Igreja Católica a mudar a própria posição no que tange à homossexualidade ou à ordenação sacerdotal das mulheres, isto significa que já não lhe é permitido viver a própria identidade, erigindo, ao contrário, uma abstrata religião negativa como critério tirânico último, ao qual todos devem dobrar-se. E essa seria a liberdade, pelo simples fato de que nos livraria de tudo o que veio antes.” ( livro citado – pg. 73/74 ).
E definitivo:
“Há o perigo de que a razão, a chamada razão ocidental, afirme ter finalmente descoberto o que é justo e apresente uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Creio ser necessário denunciar com força esta ameaça. Ninguém é obrigado a ser cristão. Contudo, ninguém deve ser constrangido a viver segundo a nova religião como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade.” ( livro citado – pg. 74 ).
Realmente, o confinar-se o componente espiritual da pessoa à ínfima órbita da intimidade secreta, agigantando-se o espaço racional-material do stablishment, centrado no relativismo egocêntrico, é a sentença totalitária do politicamente correto.
O texto já se faz longo.
Melhor, e para que não incidamos, também, na atitude de enxurrada a tudo tragar que, em momento próximo, permaneçamos desenvolvendo o conhecimento da pessoa do Papa Bento XVI por essa insuspeita literatura: “Luz do Mundo – o Papa, a Igreja e os sinais do tempo.”        

             

domingo, 20 de janeiro de 2013


                                COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE



          Passados oito meses da definição de seus membros e efetiva instalação, o tempo faz-se propício para que possa partilhar com todos minha vivência nessa missão, ainda que inconclusa, ainda que a retratar experiências não encerradas.
          De plano, que se assente, com total certeza, a imprestabilidade da argumentação a bradar o caráter revanchista da Comissão Nacional da Verdade porque dois lados existem e, então, como não se investigar, também a conduta dos que, politicamente, se opuseram ao Estado ditatorial militar?
          Não há dois lados, na verdade não há lado algum, mas uma única realidade, normativamente caracterizada.
          Com efeito, como está mesmo na Exposição de Motivos que fundamentou a Lei nº 12.528/2011, que criou a Comissão Nacional da Verdade, com a Lei nº 9.140/1995, ficou assentado que o Estado brasileiro, por seus agentes públicos, cometeu graves violações em detrimento da pessoa.
          Ora, por tal razão, que é cristalina, a Comissão Nacional da Verdade deve cuidar exclusivamente de averiguar os fatos consumados por agentes públicos, dado que com a edição da Lei nº 9140/1995, cujo ciclo normativo a Lei nº 12.528/2011 encerra, reiterando o que acima disse, o Estado brasileiro reconheceu como mortos, por seus agentes públicos, “pessoas que tenham participado ou tenham sido acusadas de participação em atividades políticas” ( artigo 1º da Lei nº 9140/1995)
          Assim, a muitos dos opositores do Estado ditatorial militar em momento algum garantiu-se-lhes regular processo. Foram arbitrariamente seqüestrados, presos, torturados, mortos e desaparecidos pelos agentes públicos da repressão oficializada.
          É fora de dúvida que esses agentes públicos, não importa a posição em que tenham figurado, conspurcaram o bom nome das instituições a que serviam, que com eles não devem ser confundidas.
          Não tem cabimento algum dizer-se, nesse passo, que “cumpriam ordens superiores”.
          Ora, é da tradição do direito universal que só se escusa a alegação de pautar-se no cumprimento de ordem de superior hierárquico, quando essa ordem não seja manifestamente ilegal.
          Por-se a torturar; dispor-se a matar, inclusive fazendo desaparecer, quem já se encontrava totalmente subjugado, obviamente não escusa ninguém, justo por assim se caracterizarem gravíssimas violações aos direitos humanos.
          A Comissão Nacional da Verdade tem o dever legal, portanto, de buscar esclarecer essas situações.
          Essa missão é sua, mas necessita empreendê-la com todos.
          Por si, e em si mesma, a Comissão Nacional da Verdade não chega a lugar algum.
          Eis porque todos nós, membros da Comissão Nacional da Verdade, concretamente já percorremos vários Estados-membros da Federação brasileira, e continuaremos a percorrer os demais, incentivando e dialogando para que Comissões, sejam elas oficiais, sejam elas da sociedade civil, surjam para contínuo trabalho conjugado, e sigam adiante, mesmo após o fim de nosso mandato.
          Além de esclarecer – já o disse antes – os mais vários episódios, que marcaram o período do Estado ditatorial militar, é missão de todos nós, claro propulsionada pela Comissão Nacional da Verdade, estabelecer permanente rede protetiva da Democracia, para que jamais, em solo brasileiro, as gerações presentes e as gerações futuras sejam arrastadas e padeçam dos desmandos brutais e incontrolados do Estado ditatorial militar. Creio, firmemente, ser esse o escopo maior devido por todos nós aos que quedaram vitimados pela truculência descomedida do Estado ditatorial militar.
          O resgate da memória é a garantia do presente livre: unidade na diversidade. O resgate da verdade é a certeza do presente no futuro: novidade na continuidade.
          “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

                                                    Paz e Bem. 
            
         

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

TEMPO DE INICIAR e TEMPO DE FINALIZAR

                   São ganhadores do prêmio Nobel de Medicina, para este ano de 2012, dois cientistas: John Gurden e Shinya Yamanaka.

                E o que fizeram para a humanidade esses pesquisadores?

                Descobriram que células maduras, células que estão por toda a parte do nosso corpo, as chamadas células-tronco adultas, podem ser reprogramadas para regredir ao seu estágio inicial, aptas, assim, a adquirir todas as potencialidades.

                Por isso, a nota da Academia que os laureia diz: “Suas descobertas revolucionaram nosso conhecimento de como as células se organizam e se desenvolvem”.

                Com efeito, insistia-se e ainda se insiste – e os órgãos de informação não cuidam de esclarecer que há dois ( 2 ) tipos de pesquisa: as que usam embriões humanos ( células-tronco embrionárias ), matando a vida já presente no útero, e as que usam as células do próprio corpo, já formado, sem eliminar a vida ( células-tronco adultas ) – na pesquisa com células-tronco do embrião humano, que nunca apresentou resultado, sequer confiável, e, reitero, propicia a criação de abjeto mercado obscuro, descontrolado, de compra e venda de embriões humanos, desnaturando o ser humano, transformado que é em mercadoria de uso, realidade tão típica da sociedade insensível, glacial, que tudo reduz a concepções relativistas e mecanicistas.

                Gurden e Yamanaka sepultam essa linha de pesquisa.

                Com efeito, se do próprio corpo humano, vivo, extraem-se células, que se reprogramam, como disse, ao estágio inicial de amplas potencialidades – e as células são do próprio corpo do paciente o que, por óbvio, diminui, caracterizadamente, o índice de rejeição – por que permanecer na matança de embriões humanos, fazendo perdurar quadro de verdadeiro holocausto?

                A vida humana jamais pode ser manipulada, torturada, trucidada, assassinada!

               Nos dias de hoje, de tanta superficialidade, de tanta massificação, de tanta violência precisamos assumir comportamentos claros e concretos contra esse estado de coisas.

                Precisamos testemunhar, com ações, o empenho na formação de sociedade verdadeiramente humanista, importando então, aqui e agora, reviver palavras tão lúcidas de Emmanuel Mounier:

“A idéia de um gênero humano com uma história e destinos coletivos, donde não pode ser separado nenhum destino individual, é uma idéia básica para os Padres da Igreja. Laicizada, vai animar o cosmopolitismo do século XVIII e mais tarde o marxismo. Opõe-se à idéia de uma descontinuidade absoluta entre as liberdades ( Sartre ) ou entre as civilizações ( Malraux, Frobenius ). Opõe-se a todas as formas de racismos ou castas, à eliminação dos anormais, ao desprezo pelo estrangeiro, à totalitária negação do adversário político, numa palavra e em geral, à constituição de homens à parte: um homem mesmo diferente, mesmo degradado, é sempre um homem, a quem devemos permitir que viva como homem.”
( consulte-se: O Personalismo – pg. 55, grifei ).

                O próprio existencialismo de Jean Paul Sartre não deixa de abordar o componente transcendente no humanismo, encarando-o, todavia, na subjetividade humana. Diz Sartre:

 “Existe, no entanto, outro sentido para o humanismo, que significa, no fundo, o seguinte: o homem está constantemente fora de si mesmo; é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz o homem existir e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele é capaz de existir; sendo essa superação e apropriando-se dos objetos apenas em relação a essa superação, o homem está no coração, no centro dessa superação. Não há outro universo senão um universo humano, um universo da subjetividade humana. Essa ligação da transcendência, como constitutiva do homem – não no sentido em que Deus é transcendente, mas no sentido da superação – e da subjetividade no sentido em que o homem não se encontra encerrado nele mesmo, mas sempre presente num universo humano, é o que denominamos de humanismo existencialista.”
( consulte-se: O existencialismo é um humanismo – 9g. 43-44, grifei ).

                Todavia, aqui pondero com Mounier:

O ultrapassar da pessoa por si própria não é somente projeto, é elevação ( Jaspers ), passar para além de. O ser pessoal é um ser feito para se ultrapassar. Tal como a bicicleta ou o avião só se equilibram quando se movem para lá de uma dada força, o homem só se mantém de pé com um mínimo de força ascensional. Quando perde altura não se rebaixa ao plano de uma qualquer humanidade moderada, ou, como foi dito, da animalidade, mas muito abaixo do animal: nenhum ser vivo, a não ser o homem, inventou as crueldades e baixezas em que este ainda se compraz.”
( consulte-se: O Personalismo – pg. 87, grifei ).

                Que a leitora e o leitor me perdoem esses devaneios.

                Saúdo, porque em coerência plena com tudo o que até aqui disse, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – que, justamente ao ensejo das discussões travadas sobre a morte de embriões humanos para – já o afirmei e repito – o tratamento fracassado e infrutífero das doenças degenerativas, saúdo a CNBB, enfatizo, porque criou a Semana Nacional em Defesa da Vida, que celebramos de 1º a 7 de outubro, anualmente, e destacou o dia 8 de outubro, como o Dia do Nascituro.

                Que o Parlamento brasileiro não se acovarde diante da tremenda manipulação com que esse tema é tratado e, expressando firme compromisso com a sociedade humanista, aprove, enviando à sanção presidencial, o Estatuto do Nascituro, a que componha, com o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso, o quadro normativo capaz de garantir a vida humana nos seus momentos mais frágeis: o tempo de iniciar e o tempo de finalizar.


               

domingo, 23 de setembro de 2012

PRIMAVERA

                                                


                 21 de setembro e, com ele, os pingos, que são gotas, que se fazem sucessivas, a chuva, então, anunciada pelos solenes, e ritmados, trovões e os relâmpagos, que clareiam o céu de Brasília.
                 O telefone toca e André, meu neto de 5 anos, do outro lado da linha: “Vovô, viva a chuva! Ela chegou!”.
                 Sim, ela chegou, e o chegar, para mim, ganha sentido tão mais proveitoso quando não significa acabar, mas sim surgir.
                 Nós não nos vocacionamos como seres acabados, seja porque terminados, ou porque liquidados.
                 Ainda que a aridez queira ressecar nossos dias, mesmo que a secura nos entorpeça e nos faça vacilar, a respiração ofegante, o ar que não está límpido, há sempre, em nós, a voz infantil, que não se sujeita a critérios de conveniência protocolar; que não abafa a espontaneidade, como expressão honesta do que se sente; que celebra o novo tempo, porque viver é realizar, de novo, o novo.
                 A história não se repete, simplistas e superficiais são os corifeus dessa visão, porque não há o fim da história.
                 Quem chega, quem surge, mesmo que o faça em tempo previsível, jamais chega como antes chegara.
                 A possibilidade deixa sempre em aberto a permanente construção da existência e impede o ponto final.
                 Na verdade, a possibilidade é a certeza da infinitude, a garantia de se estar além dos limites, e transcender.
                 Tantas e tantos que se arvoram nas ramificações do desvairado egocentrismo e da uniformizada truculência na ilusão de se constituírem nos supremos árbitros dos demais, mergulhados estão no círculo hermético em que se encerram, e então terminam.
                 Primavera: surgem flores, pela vez primeira; ressurgem flores, de tantas vezes e modos. A natureza surge e ressurge na profusão de cores, alegria da heterogeneidade, encanto do que se faz diverso, profusão de vida nascente.
                 “Vovô, viva a chuva! Ela chegou!”


                                                                        Paz e Bem!