quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

PEDRO SIMON

         Voz expressão de círculo cada vez mais reduzido de mulheres e homens que se devotam à representação popular, como legisladores ou governantes, de maneira honesta na preponderância do bem comum, fazendo-o como itinerário de vida.


         A condição humana não é perfeita e irrepreensível.


         Falhas, todos cometemos.


         Sábia é a lição de quem disse: “Atire a primeira pedra, quem nunca pecou”, ou seja, quem nunca errou.


         O grande mal está em que na sociedade globalizada e manipulada pelo noticiário sensacionalista todos são colocados no mesmo patamar, no “mesmo saco” é o dito popular, e a história de vida da pessoa que testemunhou, e testemunha, conduta séria e responsável é dragada pela voracidade do manchetismo por um único deslize assumido, então jogada na vala comum e fétida dos que, seguidamente, viciados estão no comprometer a condução correta dos assuntos públicos em prol do bem comum.


         A pessoa é única e irrepetível.


         Disso decorre, dentre tantas outras ilações, o dever que nós temos de examinar quem é quem, e jamais a todos equiparar e a todos reduzir a um produto uniforme.


         Você, Pedro Simon, tem itinerário de vida de dignidade e respeito. Não é criação fantasiosa.


         Prossiga porque é na caminhada que continuamos a aprender a caminhar.


         O caminho que você percorreu não pode ser negado, julgado abjeto, ou destruído, se um atalho a você atraiu.


         Por certo, outros tantos atalhos, em sua vida, você repudiou. Esse, agora noticiado, abandone-o e retome a caminhada no seu curso natural que, em relação à sua pessoa, é correta e digna.


domingo, 30 de janeiro de 2011

JANEIRO

                                                       JANEIRO


         Dilma Roussef presidenta do Brasil.

         Muito mais do que realçar o valor da mulher, e a palavra presidenta é simbólica, ainda que acanhada, concessão a isso, o grande desafio, para mim, nesse tempo que começa sob a liderança de Dilma é constituí-lo, construindo-o, como o tempo da verdade.

         Verdade que não se contenta em ser, unicamente, provedora de bens materiais – ainda que necessários – para a mulher e para o homem. Não há, então, porque se destacar um do outro a que se hostilizem, ou a que mesmo reneguem sua natural condição, mas e conferindo pleno sentido à normal distinção entre os dois, uni-los na complementaridade que a diversidade do ser homem e do ser mulher propicia ao crescimento pessoal e conjunto de cada qual.. Com efeito, temor algum deve existir no afirmar-se a família como o encontro propício ao desabrochar e acontecer das potencialidades da mulher e do homem nos espaços da vida em que são, desde que concebidos e até que findos. Verdadeira governanta há de empenhar-se nesse propósito porque tão, para mim certamente mais, grave do que a pobreza material é a indigência em ser, que da pessoa subtrai o direito inalienável de plenamente manifestar-se, impedindo-a de ser protagonista do banquete da vida em todas as suas dimensões.

         Não podemos nos constituir, naquilo que é tão ao gosto dos manipuladores de todos os matizes, em: bandos de big brothers brasil.

         Verdade que não aceita o nepotismo, o compadrio, a barganha como vetores da condução da res publica (= coisa pública ). A cidadania é empenho coletivo para a cotidiana construção do bem comum. Quem dela recebe a representação, seja na função de governar, no âmbito que for – municipal, estadual, federal -, seja na função de legislar – vereador, deputado, senador – não pode sobrepor-se à representação recebida que, aliás, é temporária, para assenhorear-se e vangloriar-se do título conspurcando o mandato, inclusive mercadejando-o em arranjos políticos.

        Verdade que não se compatibiliza com privilégios na responsabilização de condutas assumidas em detrimento do bem comum, principalmente quando tais privilégios significam a isenção judicial de culpa pelo decurso do tempo, o que juridicamente, chama-se prescrição, e também significam tais privilégios o sigilo sobre o processamento judicial de quem quer que seja. O comportamento funcional de toda pessoa encarregada de serviço público há de ser, sempre, claro e transparente, tanto no que fez quanto pelo que fez.

         As águas de janeiro são de muitas lágrimas.

         Lágrimas só são verdadeiras se nos conduzem a ser o que não fomos antes.

         Lágrimas, como as águas, não são para nos deter, mas para nos impelir adiante, além de nós mesmos, em direção ao outro, ao próximo, quebrando e mudando o que é egoístico fechamento em amorosa solidariedade.

         A verdade nos faz construtores da “civilização do Amor”.

         Que assim, consigamos todos, que seja.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Paz

          Ainda vivíamos, nós brasileiras e brasileiros, os tempos obscuros e difíceis do autoritarismo, ainda que sinais perceptíveis indicassem seus estertores. Um desses sinais era excelente - o que é raro - programa de televisão, chamado "Abertura", no qual temas de elevado valor eram discutidos por pessoas de, igualmente, elevado valor.

          Assistia eu uma noite, debate sobre a paz. Lembro-me bem que Darcy Ribeiro, provocativo, dirigiu-se a Alceu de Amoroso Lima, indagando-lhe, de plano: "Alceu, o que é a paz?". Sereno, o "Tristão de Ataíde", alcunha que se dera Alceu de Amoroso Lima, eminente pensador, respondeu-lhe, firme e suavemente: "Darcy, a paz é o equilíbrio no movimento".

          Resposta em frase simples - "a paz é o equilíbrio no movimento " -, mas de profunda sabedoria, guia para nossas vidas.

          Com efeito, a paz não é e, portanto, não se experimenta, assumindo-se postura de braços cruzados, de alheiamento, de afastamento, de fuga do mundo e das realidades que o constituem, ou neles estão: a paz não é estática ausência.

         A paz é dinâmica - movimento, ensina-nos Alceu - mas que transcende o próprio movimento porque, alcançando o equilíbrio, nos equilibra, como pessoa, nos nossos três componentes - o espiritual, o racional e o material -, e como ser vivente em nossa relação com o mundo.

         O Papa Bento XVI, em sua Mensagem para este 1º de janeiro de 2011, que a Igreja sempre celebra como o Dia Mundial da Paz, o dia de abertura do calendário anual, com tanta propriedade diz, na conclusão da Mensagem:
"A paz é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, um projeto a realizar, nunca totalmente cumprido. Uma sociedade reconciliada com Deus está mais perto da paz, que não é simples ausência de guerra, nem mero fruto do predomínio militar ou econômico, e menos ainda de astúcias enganadoras ou de hábeis manipulações. Pelo contrário, a paz é o resultado de um processo de purificação e elevação cultural, moral e espiritual de cada pessoa e povo, no qual a dignidade humana é plenamente respeitada. Convido todos aqueles que desejarem tornar-se obreiros da paz e sobretudo os jovens a prestarem ouvidos à própria voz interior, para encontrar em Deus a referência estável para a conquista de uma liberdade autêntica, a força inesgotável para orientar o mundo com um espírito novo, capaz de não repetir os erros do passado. Como ensina o Servo de Deus Papa Paulo VI, a cuja sabedoria e clarividência se deve a instituição do Dia Mundial da Paz, é preciso, antes de mais nada, proporcionar à Paz outras armas, que não aquelas que se destinam a matar e a exterminar a humanidade".

          Com efeito, o fechamento da mulher e do homem sobre si mesmos, ilhados no solitário egocentrismo, impele-nos ao delírio do poder, do prazer e do possuir. Inebriamo-nos pelo ter, em demasia e sem fim. Enganamo-nos, com artifícios e máscaras, no existir pelo existir, e nos consideramos senhoras e senhores da vida e da morte.

          Eis porém que leio, em outro tópico da Mensagem, a que acima aludi, valioso ensinamento:
"Sem o reconhecimento do próprio ser espiritual, sem a abertura ao transcendente, a pessoa humana retrai-se sobre si mesma, não consegue encontrar respostas para as perguntas do seu coração sobre o sentido da vida e dotar-se de valores e princípios éticos duradouros, nem consegue sequer experimentar uma liberdade autêntica e desenvolver uma sociedade justa."

          "A paz é o equilíbrio no movimento" e o equilíbrio não se concilia no curvar-se aos modismos fugazes, porque o equilíbrio não se relativiza. O equilíbrio advem-nos da adesão a verdades objetivamente presentes em todos nós, mulheres e homens, e em todos os tempos.

          Viver em paz é descobrí-las - as verdades objetivamente presentes em todos nós, mulheres e homens, e em todos os tempos - na contingência histórica, para realizá-las em nossa história, porque, e aqui encerro estas meditações escritas com mais outra preciosa orientação do Papa Bento XVI, em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz:
"Uma liberdade sem relação não é liberdade perfeita. Também a liberdade religiosa não se esgota na dimensão individual, mas realiza-se na própria comunidade e na sociedade, coerentemente com o ser relacional da pessoa e com a natureza pública da religião. O relacionamento é um componente decisivo da liberdade religiosa que impele as comunidades dos crentes a praticarem a solidariedade em prol do bem comum. Cada pessoa permanece única e irrepetível e, ao mesmo tempo, completa-se e realiza-se plenamente nesta dimensão comunitária.

                                                                                    Paz e Bem!
 



         
 
  
    

domingo, 12 de dezembro de 2010

Ser Feliz

          Duas motivações impelem-me a dedicar breves linhas de reflexão ao tema posto em título.

          A primeira está na proposta de emenda constitucional do Senador Cristovam Buarque, apresentada nesses termos:
                    Art. 6º - "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde,  a          alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição."

          Na verdade, tenho que, como redigida, a proposta de alteração normativa tem por finalidade enfatizar o objetivo de norma-síntese de todos os direitos sociais que estão, topicamente, expressos nos vários incisos do art. 7º e, especificamente, nos capítulos II, seções de I a IV; III, seções I e II; e IV, seção VII, da Constituição federal.

          Norma-síntese que já se põe na atual redação do artigo 6º. A novidade, se novidade há, está em, expletivamente, dizer-se que os direitos sociais têm por escopo: a busca da felicidade.

          Por isso, a proposta tenho-a por procedente vez que, substancialmente, não desfaz, ou compromete, o adequado tratamento da matéria, exigido à afirmação e à proteção da dignidade da pessoa.

          Aliás, na medida em que preserva a proteção à maternidade como dado a caracterizar a busca da felicidade, por óbvio, o texto constitucional empenha-se, claramente, na defesa da vida do nascituro posto que a maternidade fica reconhecida a partir da concepção, quando certa e objetivamente faz-se, presente e real, na mulher o quadro gestacional, assim, e portanto, dotado de total proteção constitucional.

          A segunda me é motivada pela presença do Natal, em breves dias.

          A maravilha do Natal, a mim, está na encarnação da Palavra.

          O Deus-Amor não é solidão, até porque se faz em Trindade amorosa, que se expande. Por isso, a Palavra, que nasce no Natal, comunica, convida, ensina.

          Então, a felicidade, que não é estático estado, mas essencialmente contínua busca, porque não tem, na experiência mundana, ponto final; carregada de dinamismo a felicidade é abrir-se à Palavra, deixar-se, perseverantemente, por ela ser questionado, viver a integralidade do espírito e do corpo, porque bem proclama S. Paulo que: "em Deus somos, existimos e nos movemos" ( At. 17, 28 ).

          Que a Palavra nasça em nós, ou seja, Feliz Natal.

                                                             Paz e Bem!   
                       

domingo, 28 de novembro de 2010

Rio de Janeiro

                 Eu sou carioca, tijucano, vascaíno e salgueiro.

                 Desde sempre há, em mim, mais do que um sentimento, porque o sentimento é sempre resposta a estímulos fora de nós, traduzidos no cotidiano acontecer, há em mim o conhecer-se e reconhecer-se filho dessa terra malandra, que significa dar bom dia para todo o mundo; caminhar no ritmo vai e vem das ondas do mar, bater o papo sério-descontraído, de preferência no bar da esquina; deixar-se seduzir e seduzir tudo o que é verdadeiramente belo.

                 A desgraça de décadas de espúrio conluio entre o poder político e o poder bandido, a tal ponto tão íntimo que não mais se percebe um ou outro, porque ambos se fundiram no rosto perverso da corrupção em todos os sentidos, entristeceu o carioca, brutalizando-o no medo-pânico, ou no deboche da insensibilidade.

                 "Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe".

                 Se essa frase compreende a transitoriedade de tudo o que diz respeito ao mundo material, ela significa, também, que tudo é possível de acontecer, porque o ser humano não é fruto do imobilismo predeterminado, mas possibilidade infinita desde que se abra, exista, no precioso ensinamento de Emmanuel Mounier:

                 "A pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade. A palavra existir indica, pelo seu prefixo, que ser é expandir-se, exprimir-se." ( O personalismo - pg. 66 ).

                 O Rio de Janeiro existe!

                 Existe na cidadania que, feita governo, rompe o conluio fétido, e com vontade e ação da boa política comanda a necessária reação ao desonesto conformismo do "estando assim as coisas, que assim fiquem, e que assim delas eu me locuplete."

                 Existe na cidadania que, feita servidores públicos da segurança pública, policiais e militares, realiza, concretamente, o ideal de honestidade e amor à causa pública, nobremente valorizando o significado das instituições e serviços a que pertencem, e se dedicam.

                 Existe na cidadania que, feita crianças, jovens, adultos, não os faz passivos espectadores, mas estimula-os a externar apoio real e a envolverem-se, corajosamente, na construção desse novo tempo, que se quer permanente e, por tal razão, há de exigir paciência, persistência e firmeza.

                 O Rio de Janeiro existe; eu existo nele; nós não existimos sem ele!
                 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Aprendizado

         Se não nos deixamos tomar pela irracionalidade dos comportamentos extremados – e aqui já apresento claro aprendizado – em tudo o que nos acontece sempre algo de bom existe.

         O processo eleitoral, para esse momento, está encerrado.

         De pronto, saudemos a presença do processo eleitoral em si como instrumento eficaz na perene construção da Democracia.

         Ser democrata é abrir-se ao diálogo, por-se em atitude de escuta e ponderação, saber que não há ponto final na construção da sociedade humana porque o incessante movimento das gerações, como o da própria vida, é contínuo descobrir-se.

         Eis porque a Democracia é o melhor de todos os regimes políticos: ela não tem a pretensão de concluir-se, antes é eterno afazer da mulher e do homem.

         Eu disse, linhas atrás, que “o processo eleitoral em si é instrumento eficaz na perene construção da Democracia”. Repito: é instrumento, portanto não é o bastante.

O grande desafio, a nós, brasileiras e brasileiros, é darmos o passo seguinte, fundamental, qual seja: como povo consciente avançarmos da mera Democracia representativa – expressão eloqüente no ato de votar – para a Democracia participativa na qual:

a)      Se elegemos, não abdicamos do controle efetivo, concreto, diuturno dos atos dos eleitos, mobilizando-nos a crítica rotineira, positiva ou negativa, do que estão a fazer, ou como estão a comportar-se;
b)      Se elegemos, não abdicamos do nosso protagonismo e, portanto, e ativamente, nos envolvemos, decidida e decisivamente, na provocação – expressão maior da Democracia participativa – de leis de iniciativa popular e de referendo;
c)      Se elegemos, não abdicamos de fazê-lo como expressão clara de posicionamento meditado, consciente, analítico, na conformidade do apresentar os valores políticos pelos quais vivemos e nos pautamos;

Com efeito, como magnificamente lê-se no Documento da CNBB, nº 91, intitulado: “Por uma reforma do Estado com participação democrática”:

“A ampliação da democracia formal parte das necessidades dos homens e mulheres que almejam ser mais que objeto.A construção da Democracia Participativa parte do pressuposto de que é necessário ultrapassar o individualismo e tomar o rumo da solidariedade que deve, pois, apelar à consciência dos cidadãos, respeitando sua autonomia e chamando-os a contribuir para a construção do bem comum.” ( nº 48 – pg. 28 ).

Quanto à mass-midia, a imprensa escrita e televisada, deve, como todas as instituições e serviços que compõem a Democracia, cultivar a equilibrada recepção da análise crítica, que sobre seu conduzir-se se faça, até mesmo porque na verdadeira Democracia não há pessoa, instituição ou serviço indene, ou que se ponha acima, de qualquer juízo crítico, pena cairmos no mais obscuro autoritarismo.

Lamentável, no processo eleitoral que estamos a considerar, o comportamento da chamada grande imprensa na difusão de “escândalos” que, por certo, dentro em breves dias não mais atiçarão as demandas noticiosas, que engendra, e mais lamentável, ainda, o sensacionalismo destituído de qualquer compromisso com a verdade. Aqui, exemplifico com duas bombásticas manchetes dos jornais Correio Braziliense e O Globo, ambas produzidas às vésperas da votação no 2º turno, na sexta-feira 29 de outubro, a dizer, respectivamente: “Até o Papa dá palpite na eleição brasileira” e “Pressão de bispos dá certo e Papa interfere na eleição”.

O manchetismo irresponsável é patente.

Tenho em mãos a íntegra do pronunciamento do Papa Bento XVI aos bispos do Regional Nordeste V, motivado pela visita ad limina apostolorum.

O pronunciamento, que perfaz duas ( 2 ) páginas, centra-se, como mesmo diz o Papa:

“...hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina o homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.”

         Destaca que “o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos”, reservando a bispos e clero posicionamento mediato, salvo “quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas ( cf GS, 76 ).”

         E, fundamentando, disse o Papa:

“Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até a morte natural ( cf. Christisfideles laici, 38 ). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases ( cf. Evangelium vitae, 74 ). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo ( ibidem, 82 ).”

         Finalizando seu raciocínio, no tópico, o Papa Bento XVI indica, cristalinamente, a fonte de onde promana o posicionamento sócio-político do cristão:

“Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é necessária – como vos disse em Aparecida – uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o Compêndio da Doutrina Social da Igreja ( Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3 ). Isto significa também que em determinadas ocasiões os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum ( cf. GS, 75 ).

          Como de todas essas palavras do Papa Bento XVI concluir-se que S. Santidade tenha adotado posição político-partidária ao ensejo da definição do quadro eleitoral em nosso País?

         Eis o exemplo clássico de manipulação da notícia que o jornalismo, autenticamente democrático, por certo repudia.

         Aí está, e para reiterar, finalizando: o tempo que se abre é de aprendizado.

         Que possamos todos, sem exceção, pessoas, instituições, serviços, na Democracia, voltarmo-nos para o aprendizado, e aqui dirigindo-me a meus irmãos leigos, religiosos, padres e bispos da fé católica, e também a meus irmãos de outras crenças, ou de crença alguma, por quê não aceitarmos o convite do Papa Bento XVI a que conheçamos, para concordar ou discordar, o magistério social da Igreja, conhecendo o Compêndio de sua Doutrina Social?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O papel da Igreja

A grande mídia, tanto escrita quanto televisada, tem-se proposto, e enfatizado, reduzir drasticamente ao espaço particular qualquer manifestação da Igreja, enquanto instituição, desautorizando-a e, portanto, censurando-a a cada vez que, publicamente, posiciona-se sobre assuntos pertinentes à convivência humana em sociedade.
Inexato é esse posicionamento midiático.
O Concílio Vaticano II espelha o avanço da eclesiologia em direção ao perene diálogo da Igreja com o mundo.
Sintomáticas as palavras que concluem o Proêmio da constituição pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), documento elaborado justamente a caracterizar a relação Igreja-Mundo:


"Eis a razão por que o sagrado Concílio, proclamando a sublime vocação do homem, e afirmando que nele está depositado um germe divino, oferece ao gênero humano a singela cooperação da Igreja, a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde. Nenhuma ambição terrestre move a Igreja, mas unicamente este objetivo: continuar, sob a direção do Espírito Paráclito, a obra de Cristo, que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, não para julgar, mas para salvar; não para ser servido, mas para servir. ( Gaudium et Spes nº 3 )."


A esse propósito, o Papa Bento XVI, no discurso de abertura da V Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano e do Caribe - CELAM -, proferido em Aparecida, e recordando o ensinamento do Concílio Vaticano II, foi textual:


"No esforço para conhecer a mensagem de Cristo e fazê-la guia da própria vida, deve-se recordar que a evangelização foi sempre unida à promoção humana e à autêntica liberdade cristã. Amor a Deus e amor ao próximo se fundem entre si: no mais humilde encontramos Jesus e em Jesus encontramos Deus ( Deus caritas est - nº 15 ). Assim, será também necessária uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o Compêndio da Doutrina Social da Igreja. A vida cristã não se expressa somente nas virtudes pessoais, mas também nas virtudes sociais e políticas."

Lamento, profundamente, que no próprio âmbito da Igreja, tantas e tantos, leigos, religiosos, sacerdotes, bispos desconheçam os preciosos ensinamentos que o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, forte no Evangelho de Jesus Cristo, - fonte primacial - apresenta, ordenada e coerentemente, a que o testemunho cristão concretamente favoreça "o instaurar a fraternidade universal" ( Gaudium et Spes nº 3 ) no mundo, dele progressivamente eliminando os males do arbítrio, da insensibilidade, do egocentrismo, da corrupção, da visão redutora da própria pessoa humana que, integralmente, é: espírito, razão e corpo.
É, sim, grandemente salutar que a Igreja, lado a lado com outras instituições da sociedade civil, promova programas sociais de inclusão e acolhida social e, aqui, como não deixar de celebrar a Pastoral da Criança e a missionária Zilda Arns; como não deixar de celebrar a irmã religiosa Dorothy Mae Stang e suas demais irmãs da congregação Notre Dame de Namur no agir pelo assentamento e garantia da terra para quem dela, efetivamente, necessita porque nela tem seu único sustento, e com ela, por certo, não especula; como não deixar de celebrar, a partir da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, tantos quantos eficazmente envolveram-se na elaboração e aprovação da Lei da Ficha Limpa, fundamental à correção dos graves desvios da prática político-partidária; como não deixar de celebrar o empenho anônimo e plural de irmãs e irmãos na defesa da vida desde a sua concepção até a morte natural e, assim, envolverem-se na construção diuturna da sociedade fraterna e justa como a nossa própria Constituição Federal nos impele a realizar.
Encerro com palavras plenas de sentido de Mario de França Miranda, lidas e meditadas em seu livro: "Igreja e sociedade":

"Hoje já se reconhece que as religiões têm algo a oferecer à sociedade civil. São elas que denunciam a marginalização a que estão condenados os mais pobres, bem como as injustiças de políticas econômicas. São elas que oferecem uma esperança que sustenta e mobiliza os mais fracos. São elas que, livres de um dogmatismo doutrinário e impositivo, oferecem motivações e intuições substantivas ( e não apenas funcionais ) para as questões sujeitas ao debate público. São elas que, numa sociedade neoliberal e prisioneira de uma racionalidade funciomal em busca de resultados, desmascaram a frieza burocrática e tecnocrática apontando os efeitos devastadores de certas decisões. São elas que, para além das macrossoluções milagrosas, apontam para a responsabilidde de cada um e para a imprescindível rejeição de um individualismo cômodo, sem as quais a ética na vida pública ou o problema ecológico não serão solucionados. Aqui a sabedoria religiosa talvez possa ser mais eficaz do que muitos discursos dos tecnocratas." ( pg. 139-140 ).