sexta-feira, 28 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
A propósito da Anistia
Posicionamentos dos que juridicamente
viabilizam a lei de anistia – Lei nº6683/1979 – centram-se, em causa subjacente
a toda a linha de argumentação desenvolvida, no ter-se constituído dito diploma
legal em fórmula adequada ao apaziguamento da sociedade brasileira, e que sua
desconstituição – até porque a revelar pacto político selado há tantos anos e
importante à sua época – óbice encontraria no exaurimento do texto normativo,
assim consolidado, e também na proibição da retroatividade penal.
No pórtico de apresentação da
Constituição federal de 1988, o Presidente da Assembléia Nacional Constituinte,
Ulysses Guimarães, disse-a:
“É a Constituição Coragem.
Andou, imaginou, inovou, ouviu, viu, destroçou tabus, tomou
partido dos que se salvam pela lei.
A Constituição durará com a Democracia e só com a Democracia
sobrevivem para o povo a dignidade, a liberdade e a justiça.”
Pois a Constituição Coragem, no artigo 5º, inciso XLIV, é
textual:
XLIV – “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação
de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado
Democrático”.
Esse preceito
constitucional é claro: todas as condutas praticadas por grupos armados de
civis ou militares que afrontem a ordem constitucional e o Estado Democrático
são crimes, observada a prévia definição das mesmas na legislação penal,
codificada ou não, em vigor ao tempo de sua prática, na exata observância do
disposto no inciso XXXIX, do mesmo artigo 5º e, quando cometidas no contexto
desse cenário – “contra a ordem constitucional e o Estado Democrático –
tornam-se inafiançáveis e imprescritíveis.
Assim, de nenhuma valia
dizer-se que a lei de anistia cristalizou pacto político, então exaurido em
seus efeitos e, portanto, imutável.
É injurídica tal
colocação.
A Constituição Federal
de 1988, a Constituição Coragem, não recepciona a lei de anistia. Não
recepciona a lei de anistia porque se revelando a Carta Magna como a expressão jurídica
suprema empenhadamente motivada e calcada na afirmação e preservação da
Democracia, por certo e por óbvio não poderia incorporar, validando, texto de
lei ordinária, que frontalmente desrespeita esse seu maior propósito.
É de se considerar que
quando a própria Constituição federal quer conceder eficácia contida a
preceitos seus vale-se ora da expressão “nos termos da lei”, ora da expressão
“a lei”, como exatamente fez nos dois incisos anteriores – XLII e XLIII – a
tratar da inafiançabilidade e da imprescritibilidade do crime de racismo –
inciso XLII – e da inafiançabilidade e insusceptibilidade da graça ou anistia a
prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o
terrorismo e os definidos como crimes hediondos – inciso XLIII -.
Ora, no inciso XLIV o
texto constitucional é direto e incisivo: constituem-se em crime inafiançável e
imprescritível as condutas criminosas, já presentes na legislação penal à época
em que foram realizadas, sempre que perpetradas por grupos armados de civis e
militares e assumidas contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.
Esse inciso, por manifesto, não pode ser interpretado como a exigir seja
inserido no Código Penal tipo, cujo “nomen iuris” seria: “agir contra a ordem
constitucional e o Estado Democrático”. Aliás, a vastidão e generalidade dessa
definição comprometeriam, sem qualquer margem para a dúvida, a exigência do princípio
da tipicidade criminal estrita, corolário imprescindível do processo judicial
democrático.
É de se louvar, por tudo
quanto até aqui se disse, o comportamento de Procuradoras e Procuradores da
República e do próprio Procurador geral da República, Dr. Rodrigo Janot
Monteiro de Barros, posicionando-se claramente sobre a imprescritibilidade e a
não incidência da lei de anistia sobre as condutas criminosas executadas pelos
agentes públicos do Estado ditatorial, até porque o artigo 127 da Constituição
federal diz ser dever do Ministério Público, como instituição permanente da
Sociedade brasileira, defender: “a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses
sociais e individuais indisponíveis.”
A Constituição Coragem
assim o é porque não teme arrostar o passado para não permitir que jamais se
faça presente; porque não teme iluminar continuadamente a escuridão, cúmplice
do silêncio, para não permitir que jamais se olvide e, então, se conheça, em
toda a sua extensão, observando-se sempre os ditames do devido processo legal,
o grau de responsabilidade dos civis e militares, que agiram, criminosamente,
contra a ordem constitucional e o Estado Democrático porque tais condutas são
inafiançáveis, tais condutas são imprescritíveis.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
"Eles têm uma pertença e não devemos isolá-los"
“Sentei ao lado dele para bater papo, estava morrendo de
saudades – recorda Isabell -. Agora penso que, talvez por viver um inferno na
própria casa, o Coutinho procurasse a história de outras pessoas, sofridas ou
não, para conseguir lidar com os problemas, para aliviar a dor que sentia
dentro do coração.”
São
palavras de Isabell Erdmann (Revista O Globo – 9/2/2014 – pag. 34, na matéria:
“Retrato falado por quem foi ouvido”), alemã, radicada no Rio de Janeiro, sobre
seu amigo, o cineasta Eduardo Coutinho, assassinado pelo próprio filho.
Cinegrafista,
documentando manifestação pública, sobretudo de jovens, é atingido letalmente
por artefato de ataque posto em sua direção.
Pessoas
jovens assumem atos gravíssimos.
Recordo-me
das palavras do Papa Francisco, ditas aos jornalistas, no vôo de vinda ao
Brasil para a Jornada Mundial da Juventude:
“Esta primeira viagem tem em vista
encontrar os jovens, mas não isolados da sua vida; eu quereria encontrá-los
precisamente no tecido social, em sociedade. Porque, quando isolamos os jovens,
praticamos uma injustiça: despojamo-los da sua pertença. Os jovens têm uma
pertença: pertença a uma família, a uma pátria, a uma cultura, a uma fé... Eles
têm uma pertença e não devemos isolá-los! Sobretudo não devemos isolá-los
inteiramente da sociedade! Eles são verdadeiramente o futuro de um povo!”
(leia-se: Papa Francisco: mensagens e homilias – JMJ Rio 2013 – pag. 9).
Os
tempos atuais trazem a marca do isolamento, da solidão.
Os dedos
nervosos, incessantemente digitando, comprometem o convívio. Mães e pais
ocupados demais, tão preocupados e ocupados que já não se sentam mais à mesa,
com seus filhos, e confraternizam, educam; não mais vivenciam a pertença comum
à família. Todos, centrados em si, todavia esvaziam-se no consumo digital e
televisivo.
O que
nos impede de, sem repudiar as características do instrumental tecnológico,
reconhecer o caráter unicamente instrumental da tecnologia e, assim, abrirmos
espaços ao bom-dia afetuoso; ao contar estórias e deixar que a fantasia nos
surpreenda, alegremente; aos passeios, quando juntos aprendemos uns com os
outros a conhecer a nós mesmos e ao que nos rodeia; ao boa-noite que,
encerrando o dia de trabalho, de estudo, ou o dia de só ser cuidado, tão
próprio dos bebês, em todos da família – a mãe, o pai, a filha, o filho – faça
acontecer o sentimento vivo de união, ou seja, de pertença porque pertencer é
unir-se para ser: o que nos impede?
Retorno
ao Papa Francisco a propósito da reflexão sobre o segundo evento: a morte do
cinegrafista Santiago Andrade.
“Porém, a pátria é o patrimônio dos
pais, o que recebemos daqueles que a fundaram. São os valores que nos
entregaram em custódia, mas não para que os guardemos em uma lata de conserva,
e sim para que, com o desafio do presente, os façamos crescer e os lancemos à
utopia do futuro. Se perdermos a pátria, não a recuperaremos: esse é nosso
patrimônio.”( leia-se: Sobre o Céu e a Terra – Jorge Bergoglio e Abraham Skorka
– pag. 118 ).
Aí
está: nosso Brasil é nosso porque de nossos ancestrais o recebemos em valores
fundantes, que não se cristalizam, mas impulsionados pelo suceder das gerações,
cresçam na perspectiva concreta da superação e mudança do que precisa ser
superado e mudado.
Por tal
razão, manifestações públicas são necessárias, alimentam a Democracia.
Manifestações
públicas hão de expressar, concretamente, por vozes, faixas e cantos o que se
quer mudar.
Manifestações
públicas são protagonizadas: os que, livre e conscientemente, optem por nelas
participarem, afirmem sua identidade, rostos a descoberto, cidadania ativa
presente.
Membros
do Ministério Público e advogados, guardiães da Democracia, devem fazer-se
presentes às manifestações públicas e os serviços de segurança do Estado devem
acompanhá-las, não predispostos a reprimi-las, mas para que não sejam elas
desvirtuadas de seus propósitos, o que supõe o equilíbrio e a capacitação
profissional desses servidores.
Manifestações
públicas exigem que as lideranças políticas respondam de maneira pronta, objetiva
e clara, sem subterfúgios ou manobras protelatórias, aos pleitos apresentados.
De todo útil e impostergável que a liderança maior de nosso País, a Presidência
da República, de imediato tivesse convocado a radiodifusão e a televisão,
posicionando-se.
Para
encerrar, valho-me de ensinamento do Papa Francisco, que atinge o coração de
tantas e tantos, crentes ou não, simplesmente porque é, com atitudes firmes e
serenas, o que diz:
“Para completar esta reflexão, além do humanismo integral,
que respeite a cultura original, e da responsabilidade solidária, considero
fundamental, para enfrentar o presente, o diálogo construtivo. Entre a
indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o
diálogo. O diálogo entre as gerações, o diálogo no povo – porque todos somos
povo -, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade. Um país
cresce quando dialogam, de modo construtivo, as suas diversas riquezas
culturais: a cultura popular, a cultura universitária, a cultura juvenil, a
cultura artística, e a cultura tecnológica, a cultura econômica e a cultura da
família, e a cultura da mídia. Quando dialogam... É impossível imaginar um
futuro para a sociedade sem uma vigorosa contribuição das energias morais numa
democracia que permaneça fechada na pura lógica ou no mero equilíbrio de
representação de interesses constituídos.” (leia-se: Papa Francisco: mensagens
e homilias – JMJ Rio 2013 – pag. 56-57 ).
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
TRÁFICO HUMANO
A Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – propõe-nos o tema “Fraternidade e Tráfico Humano” ao
ensejo da Campanha da Fraternidade para este ano de 2014.
Diz o Papa
Francisco: “O tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as
nossas sociedades que se dizem civilizadas.” (Texto-Base da Campanha nº 7 – pg.
11 ).
Certamente
assim o é porque o tráfico humano
dilacera a dignidade da pessoa.
Instrumentalizada, faz-se em objeto da ganância da atividade econômica
erigida em objetivo supremo da razão de viver, e crianças são lançadas em carvoarias a trabalhar por forma
inclemente; jovens mutilam-se nos canaviais
ao corte da cana, ou padecem sob condições degradantes de trabalho, reduzidos que estão à condição análoga à de
escravos; famílias inteiras amontoam-se em cortiços, que são as próprias
oficinas do trabalho manual de costura e tecelagem a que se submetem.
Diz bem o
Texto-Base da Campanha, avivando-nos os ensinamentos das Cartas Encíclicas “Sollicitudo Rei Socialis” e “Centesimus Annus”, ambas do Papa João
Paulo II:
“O mundo
contemporâneo vive sob o domínio da injustiça e de um sistema cimentado nas
estruturas de pecado. Tais estruturas estão ainda mais fortalecidas, agudizando a dramática situação dos mais
pobres.” (Texto-Base: nº 158 – pg. 56).
Como
permanecer, quem quer que seja, insensível a essa realidade?
Presente em
mim, aqui e agora, a eloquente afirmação de S. Paulo, dirigida aos gálatas, na
ocasião, e a todos nós, para sempre: “É
para a liberdade que Cristo nos libertou.”
Com efeito, a liberdade não é, como tanto se
apregoa nos dias em curso, a absolutização da autonomia do eu, alimentando-se
de encontros casuais, fortuitos, ou ditados pelo pragmatismo interesseiro; não é o eu centrado em si mesmo,
medindo o outro na frieza da relação custo-benefício a que subjaz a fria
pergunta: o quanto eu ganho com você?
Somos livres para que, libertos de
nossas egoísticas amarras, nos
entreguemos ao outro, que não está fora
de nós, ou nos é alheio, mas que pelo amor-doação faz-se em nosso “outro eu”; e, por tal maneira de ser, com o outro
nos envolvemos, realmente, em verdade e justiça. Ou como está muito bem posto
no Texto-Base:
“138. Jesus
ensina que a compaixão implica em sofrer a dor do outro, com o outro... Deus, em Jesus, se expõe à dor das
criaturas, se deixa afetar.” ( pg. 51 ).
Por óbvio,
não se está, aqui, a fazer o apanágio do sofrimento. Se é certo que o
sofrimento é inescapável da condição humana, é igualmente certo que o ser livre
supera esse acontecimento próprio da condição humana, tornando-o, como mesmo
disse, mero acontecimento, porque a
vivência evangélica da liberdade ultrapassa os limites da condição humana.
Nesse sentido, compreendo as palavras tão verdadeiras
do Papa Francisco, ditas no dia 8 de julho do ano passado, em Lampedusa, local
de tantas mortes, por afogamento, de desesperados emigrantes africanos,
manipulados pelos “senhores” do tráfico humano:
“Somos uma
sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de padecer com; a globalização da indiferença tirou-nos a
capacidade de chorar.” ( Texto-Base – pg. 102).
E
definitivas, para mim, são também, no mesmo contexto, essas expressões do Papa
Francisco:
“... perdemos
o sentido da responsabilidade fraterna; caímos na atitude hipócrita do
sacerdote e do levita de que falava Jesus na parábola do Bom Samaritano: ao
vermos o irmão quase morto na beira da estrada, talvez pensemos “coitado” e
prosseguimos o nosso caminho, não é dever nosso; e isto basta para nos
tranqüilizarmos, para sentirmos a consciência em ordem. A cultura do bem-estar,
que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos
outros, faz-nos viver como se fôssemos
bolas de sabão: estas são bonitas, mas não são nada, são pura ilusão do fútil,
do provisório. Esta cultura do bem-star leva à indiferença a respeito dos
outros; antes, leva à globalização da
indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença.
Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa,
não é responsabilidade nossa.” ( Texto-Base – pg. 103/104 ).
Possamos
todos com atos concretos, responsáveis e firmes, no espaço pessoal, familiar,
profissional e comunitário não deixar que a Campanha da Fraternidade seja mero
assunto de conversa, ou de teóricas digressões, mas nos impulsione em motivação
bastante e eficaz para a ação livre.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Perguntas para final de domingo em
final de ano
Acabo de assistir Vinicius de Moraes
por suas músicas, tantas e belas, e trechos de entrevistas suas, no tempo, e me
pergunto por que a poesia, expressão do encanto e da dor, anda tão distante e,
quando chega, assume formas tão secas, quando não insossas?
Acabo de participar de missa, padre
Luiz e a comunidade paroquial, reflexão tão apropriada e sábia, que ele
enunciou sobre a formação da família; o encontro das gerações que disso
resulta; o suportar o outro não como fardo, mas como apoio certo, porque
confiável, eis que manifesta, concretamente, “o amor como vínculo da perfeição”;
o Estado-Herodes, assassino por ação, ou omissão, dos mais fracos, dos que não
contam porque representam estorvo, obstáculo à curtição ensandecida da
materialização dos costumes, ou porque significam o inútil, o empecilho à
produção e ao ganho, mais ainda, fonte de gastos incessantes no envelhecer, que
se arrasta, e me pergunto por que padre Luiz, que nos concita a nos posicionarmos
à luz da evangélica opção pela vida em abundância, não ficará mais entre nós,
retornando que está a outro local?
Acabo, ao acaso, de ver Dilma Roussef
na televisão em mais uma monótona aparição a desfilar a retórica da melhoria
econômico-financeira das famílias brasileiras, e me pergunto por que as
lideranças políticas são tão limitadas, incapazes de transcender o discurso das
realizações-inaugurações e nunca se posicionam honesta, clara e objetivamente
sobre o que, na verdade, importa: que
valores pautam o nosso ser como pessoa; a nossa convivência em família, na
vizinhança, na comunidade em que estamos inseridos, no País que construímos?
Como tornar concreta a vivência desses valores, calcados na solidariedade, no
respeito à divergência, na honestidade, na promoção da paz e do bem comum?
Acabo de retornar da simples e
pequena gruta, construída no jardim daqui de casa, refúgio meu ante S.
Francisco, que primo meu, artesão e franciscano de coração, como também eu
tento ser, fez-me chegar no dia 3 de outubro – o trânsito de S. Francisco – e
invadido por sentimento de paz, traduzo-o não em rancorosas, ou amargas, ou
agressivas palavras, que estou a escrever, mas em perguntas como a que estou
fazendo, e mais uma vez me pergunto por que as pessoas não tornam vivo,
existencial, o testemunho de S. Francisco? Por que gostam de citar passagens de
sua vida; aqui e acolá usam objetos de lembrança do poverello de Assis, mas tudo permanece no exterior, até mesmo suas
orações, então meramente faladas e repetidas, e as pessoas não praticam o que
S. Francisco praticou com a própria vida, cotidianamente?
Está para acabar mais um ano – 2013 –
e sobre ele, portanto, perguntas não mais me motivam, mas como novo ano aí está
– 2014 -, por um instante deixo de lado as perguntas e termino este texto com o
desejo – porque é o desejo que nos move,
nos faz viver – o desejo de que as perguntas, que fiz, a mim e a todos
vocês tenham respostas que nos façam verdadeiramente felizes.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
15 de novembro
O 15 de novembro, celebrado – será
mesmo? – pela proclamação da República, deste ano de 2013 é marcado pela prisão
de lideranças políticas e representantes do esquema financeiro-publicitário, esquema
costumeiro à eficácia dos detentores do poder, que nele desejam permanecer,
indefinidamente – o chamado projeto de poder -, ditado pelos comportamentos
personalistas e centralizadores, mascarados pela distribuição de bens materiais
à população, disso excluída.
Nada contra, antes pelo contrário, à
distribuição de bens materiais de consumo.
Isso, contudo, não pode constituir-se
na opção central de política governamental: apresentar-se como mera agência
provedora de consumo.
Pelo que se anseia, básica e
fundamentalmente, é a centralidade da educação, da saúde e do ambiente
ecologicamente limpo, porque se põem a serviço da centralidade da pessoa humana
para que se desenvolva integralmente.
É por isso que, espontaneamente,
eclodiu o que se resolveu chamar de “clamor das ruas”, acontecimento muito
importante, mas que não demorou a ser desvirtuado pela cumplicidade ocasional,
mas necessária a ambos, dos detentores do poder político, que se homiziaram no
silêncio, quando tudo tinham para propor e lutar pela aprovação de medidas que
terminassem com a degenerescência do “presidencialismo de coalizão”, marcada
pela barganha inescrupulosa dos cargos públicos e loteamento das instituições
públicas – herança maldita de maus políticos brasileiros, não de todos, mas de
muitos – e da chamada grande mídia que, e como sempre, encantada pela venda
sensacionalista do produto noticiado, priorizou, exclusivamente, o desvario das
explosões de agressividade irracional, deixando de, por incompetência ou
interesses outros, também priorizar o
debate sobre o papel da Sociedade na condução dos assuntos postos a cargo do
Estado brasileiro.
Aqui, o ponto.
Somos, brasileiras e brasileiros,
povo atrelado passivamente ao Estado na condução de assuntos nossos.
Nosso ato de votar não afirma nossa
cidadania. Transferimo-la aos chamados “representantes do povo”, que se colocam
acima de nós; se eternizam em infindáveis reeleições; não nos prestam contas do
que fazem, se é que fazem algo de concreto: antes eles se tornam
“profissionais” gananciosos da política, assim conspurcada em sua relevante
razão de ser: o compromisso único com o bem comum.
O formalismo da democracia representativa é a face branda e sedutora das
ditaduras civis.
Ou, como diz, magnificamente, Aldous
Huxley: “A ditadura perfeita terá as
aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não
sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravidão onde, graças ao consumo e
ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”.
O nosso desafio está em participar,
ativa e perseverantemente – jamais desistir – na cotidiana construção da
sociedade, assim protagonista e construtora de sua própria história: a democracia participativa.
Urge mudar a mentalidade que tecla o
voto eletrônico, e vai para a casa com a ridícula sensação do dever cumprido.
Por que deixamos que as ruas fossem
palco de desvairados?
Por que não nos mantivemos
mobilizados em passeatas, cara à mostra, sem medo de arrostar o sistema, com
vozes, e cantos, e faixas a estampar as medidas concretas, que queremos, pela valorização da educação; pela atenção
incessante à saúde; pelo cuidado e preservação do meio ambiente, espaço
propício do existir e ser; pelo
incansável repúdio à corrupção, efetivado na condenação e cumprimento da
pena criminal, sem rodeios protelatórios, a que se acrescenta o necessário e
imediato ressarcimento pecuniário aos cofres públicos da lesão causada não só
por parte de episódicos protagonistas, alcunhados de mensaleiros, mas também
por todos quantos se apropriam, denigrem, conspurcam a res publica (= a coisa pública ).
Aí sim, a celebração do 15 de
novembro é verdadeira, e dela podemos nos orgulhar.
Caso contrário, tudo fica em mais uma
notícia sensacionalista que, logo e logo, vai para a cesta de lixo do
esquecimento.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
PARA
A FAMÍLIA FONTELES
Tias e tios, primas e primos:
20 de setembro, lua plena em
Brasília, natureza límpida e serena, nasce Artur, filho de Martim e Fernanda,
meu sexto neto.
Experimento a paz. São quase 67 anos
percorridos, e é tão bom contemplar filhas e filho – Flávia, Fernanda e Gabriel
-, traçando e construindo seu próprio caminho; a filha, estrela Maria Clara,
anjo tão gentil de Deus, e os filhos, como ela, das filhas, que são Rafael,
André, Lucas, Heitor e Artur, e se sentir avô.
Todo esse ciclo incessante,
surpreendente, de alegrias e dores, de superações e cansaços, de crescimento e
tropeço, só é possível porque há Ângela, amada e companheira, eis porque
geramos, e acolhemos, e dialogamos e perseveramos.
Todo esse ciclo incessante,
surpreendente, só foi possível porque antes aconteceu Geraldo e Maria, que
também me geraram, me acolheram, comigo dialogaram e perseveraram comigo.
Eis porque nos meus momentos de
solidão, angústia, medo, na verdade eu nunca estive só, a angústia não me
dominou e o medo jamais de mim se apossou.
Isso tudo é família.
Confesso que meu coração se
entristece – nuvens carregadamente cinzentas – quando o mundo quer obscurecer
esse movimento tão bonito das gerações, acenando – porque, na verdade, a
proposta mundana esvai-se num aceno – com opções idolátricas do poder pelo
poder, do possuir pelo possuir, do prazer pelo prazer.
Nuvens, por mais carregadamente
cinzentas que estejam, são sempre passageiras.
O firmamento, justo porque é firmamento,
não passa nunca. Eu também o chamo de céu porque, olhando para ele, saio de
minhas prisões materiais e intelectuais e, sem abandoná-las, porque me são
necessárias, elevo-as espiritualmente e, assim, sou livre para me doar: a
dimensão mais larga de ser família.
Minhas tias e meus tios, presentes de
meu pai Geraldo Fonteles; minhas primas e meus primos, tantas e tantos nas
gerações dos Fonteles, agora eu lhes faço um único e simples pedido: olhem-se uns
aos outros e se abracem porque, assim, e por um instante, eu estou, aqui e
agora, com vocês, para estarmos sempre.
Paz
e Bem,
Claudio Fonteles.
Assinar:
Postagens (Atom)