domingo, 17 de fevereiro de 2013

PAPA BENTO XVI


          O noticiário, em enxurrada, sobre a positiva e determinada atitude do Papa Bento XVI, como tudo que se faz, em enxurrada, impossibilita a serena avaliação sobre seu comportamento.
          Velhos, e mal abordados, temas são avivados; midiáticas vozes são chamadas a, em uníssono, repetirem a desgastada tecla: líder conservador, retrógrado, fechado em esquema pensamental ultrapassado e, assim, arrastando a Igreja católica a descompasso em relação ao mundo.
          Repito: a enxurrada leva tudo, de roldão; compraz-se no incapacitar a análise racional e, portanto, fundamentada.
          O Papa Bento XVI não é nada disso com que o carimbou o esquema midiático.
          Eu me permito, aqui, sugerir aos que têm diante dos olhos o que escrevo, a leitura de “Luz do Mundo – o Papa, a Igreja e os sinais do tempo”, proveitosíssimo diálogo do Papa Bento XVI, porque o revela tal qual é, com o arguto jornalista Peter Seewald.
          Destaco, de todo modo, alguns trechos a embasar meu posicionamento.
          O Papa Bento XVI bem apresenta o significado do ser cristão, ao dizer:
“Toda a minha vida sempre foi atravessada por um fio condutor, este: o cristianismo confere alegria, alarga os horizontes. Definitivamente, uma experiência vivida sempre e somente contra seria insuportável”. ( livro citado – pg. 27 ).
Por isso, e com coerência, linhas adiante disse na entrevista:
“Hoje, sobretudo, o Papa tem o dever de lutar em toda parte pelo respeito aos direitos humanos, como íntima conseqüência da fé no fato de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, e que tem uma vocação divina. O Papa tem o dever de empenhar-se pela liberdade, contra a violência e contra as ameaças de guerra. Do profundo de seu coração, está obrigado a lutar pela conservação do criado, a opor-se a sua destruição.” ( livro citado – pg. 37 ).
         O alegrar-se só é possível, realmente, quando abrimos horizontes em nossa existência, porque a tristeza advém do fechamento, da obliteração, da desunião. A liberdade abre-nos os horizontes e nos impulsiona ao outro – alteridade -, vocacionados todos à comunhão, porque o ato de amar sempre é proposta à integração, jamais imposição cuja conseqüência fatal é a desintegração, realidade vivida por tantas mulheres e tantos homens de nosso tempo.
        Tornando ao Papa Bento XVI, quando questionado por Seewald a respeito do tema da pedofilia, deixou por bem claro que:
“O senhor tem razão é um pecado muito grave se alguém que, na realidade, deveria ajudar as pessoas a encontrar o caminho para Deus, alguém a quem se confia uma criança, um adolescente, a fim de encontrar o Senhor, ao contrário, abusa deles e os distancia do Senhor. Dessa forma, a fé, como tal, fica desacreditada, a Igreja já não pode colocar-se de maneira convincente como anunciadora do Senhor. Tudo isso nos perturbou, ainda hoje me convulsiona interiormente.” ( livro citado – pg. 43 ).
Para concluir:
“Ademais, faz parte também da verdade o fato de que devo punir quem pecou contra o verdadeiro amor.”  (livro citado – pg. 44).
Como falar-se de atitudes de acobertamento do Papa Bento XVI?
Exposto em raciocínio límpido e seguro, o Papa Bento XVI trata dos chamados temas atuais com primorosa argumentação. Disse:
“Quando, por exemplo, em nome da não discriminação quer-se constranger a Igreja Católica a mudar a própria posição no que tange à homossexualidade ou à ordenação sacerdotal das mulheres, isto significa que já não lhe é permitido viver a própria identidade, erigindo, ao contrário, uma abstrata religião negativa como critério tirânico último, ao qual todos devem dobrar-se. E essa seria a liberdade, pelo simples fato de que nos livraria de tudo o que veio antes.” ( livro citado – pg. 73/74 ).
E definitivo:
“Há o perigo de que a razão, a chamada razão ocidental, afirme ter finalmente descoberto o que é justo e apresente uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Creio ser necessário denunciar com força esta ameaça. Ninguém é obrigado a ser cristão. Contudo, ninguém deve ser constrangido a viver segundo a nova religião como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade.” ( livro citado – pg. 74 ).
Realmente, o confinar-se o componente espiritual da pessoa à ínfima órbita da intimidade secreta, agigantando-se o espaço racional-material do stablishment, centrado no relativismo egocêntrico, é a sentença totalitária do politicamente correto.
O texto já se faz longo.
Melhor, e para que não incidamos, também, na atitude de enxurrada a tudo tragar que, em momento próximo, permaneçamos desenvolvendo o conhecimento da pessoa do Papa Bento XVI por essa insuspeita literatura: “Luz do Mundo – o Papa, a Igreja e os sinais do tempo.”        

             

domingo, 20 de janeiro de 2013


                                COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE



          Passados oito meses da definição de seus membros e efetiva instalação, o tempo faz-se propício para que possa partilhar com todos minha vivência nessa missão, ainda que inconclusa, ainda que a retratar experiências não encerradas.
          De plano, que se assente, com total certeza, a imprestabilidade da argumentação a bradar o caráter revanchista da Comissão Nacional da Verdade porque dois lados existem e, então, como não se investigar, também a conduta dos que, politicamente, se opuseram ao Estado ditatorial militar?
          Não há dois lados, na verdade não há lado algum, mas uma única realidade, normativamente caracterizada.
          Com efeito, como está mesmo na Exposição de Motivos que fundamentou a Lei nº 12.528/2011, que criou a Comissão Nacional da Verdade, com a Lei nº 9.140/1995, ficou assentado que o Estado brasileiro, por seus agentes públicos, cometeu graves violações em detrimento da pessoa.
          Ora, por tal razão, que é cristalina, a Comissão Nacional da Verdade deve cuidar exclusivamente de averiguar os fatos consumados por agentes públicos, dado que com a edição da Lei nº 9140/1995, cujo ciclo normativo a Lei nº 12.528/2011 encerra, reiterando o que acima disse, o Estado brasileiro reconheceu como mortos, por seus agentes públicos, “pessoas que tenham participado ou tenham sido acusadas de participação em atividades políticas” ( artigo 1º da Lei nº 9140/1995)
          Assim, a muitos dos opositores do Estado ditatorial militar em momento algum garantiu-se-lhes regular processo. Foram arbitrariamente seqüestrados, presos, torturados, mortos e desaparecidos pelos agentes públicos da repressão oficializada.
          É fora de dúvida que esses agentes públicos, não importa a posição em que tenham figurado, conspurcaram o bom nome das instituições a que serviam, que com eles não devem ser confundidas.
          Não tem cabimento algum dizer-se, nesse passo, que “cumpriam ordens superiores”.
          Ora, é da tradição do direito universal que só se escusa a alegação de pautar-se no cumprimento de ordem de superior hierárquico, quando essa ordem não seja manifestamente ilegal.
          Por-se a torturar; dispor-se a matar, inclusive fazendo desaparecer, quem já se encontrava totalmente subjugado, obviamente não escusa ninguém, justo por assim se caracterizarem gravíssimas violações aos direitos humanos.
          A Comissão Nacional da Verdade tem o dever legal, portanto, de buscar esclarecer essas situações.
          Essa missão é sua, mas necessita empreendê-la com todos.
          Por si, e em si mesma, a Comissão Nacional da Verdade não chega a lugar algum.
          Eis porque todos nós, membros da Comissão Nacional da Verdade, concretamente já percorremos vários Estados-membros da Federação brasileira, e continuaremos a percorrer os demais, incentivando e dialogando para que Comissões, sejam elas oficiais, sejam elas da sociedade civil, surjam para contínuo trabalho conjugado, e sigam adiante, mesmo após o fim de nosso mandato.
          Além de esclarecer – já o disse antes – os mais vários episódios, que marcaram o período do Estado ditatorial militar, é missão de todos nós, claro propulsionada pela Comissão Nacional da Verdade, estabelecer permanente rede protetiva da Democracia, para que jamais, em solo brasileiro, as gerações presentes e as gerações futuras sejam arrastadas e padeçam dos desmandos brutais e incontrolados do Estado ditatorial militar. Creio, firmemente, ser esse o escopo maior devido por todos nós aos que quedaram vitimados pela truculência descomedida do Estado ditatorial militar.
          O resgate da memória é a garantia do presente livre: unidade na diversidade. O resgate da verdade é a certeza do presente no futuro: novidade na continuidade.
          “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

                                                    Paz e Bem. 
            
         

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

TEMPO DE INICIAR e TEMPO DE FINALIZAR

                   São ganhadores do prêmio Nobel de Medicina, para este ano de 2012, dois cientistas: John Gurden e Shinya Yamanaka.

                E o que fizeram para a humanidade esses pesquisadores?

                Descobriram que células maduras, células que estão por toda a parte do nosso corpo, as chamadas células-tronco adultas, podem ser reprogramadas para regredir ao seu estágio inicial, aptas, assim, a adquirir todas as potencialidades.

                Por isso, a nota da Academia que os laureia diz: “Suas descobertas revolucionaram nosso conhecimento de como as células se organizam e se desenvolvem”.

                Com efeito, insistia-se e ainda se insiste – e os órgãos de informação não cuidam de esclarecer que há dois ( 2 ) tipos de pesquisa: as que usam embriões humanos ( células-tronco embrionárias ), matando a vida já presente no útero, e as que usam as células do próprio corpo, já formado, sem eliminar a vida ( células-tronco adultas ) – na pesquisa com células-tronco do embrião humano, que nunca apresentou resultado, sequer confiável, e, reitero, propicia a criação de abjeto mercado obscuro, descontrolado, de compra e venda de embriões humanos, desnaturando o ser humano, transformado que é em mercadoria de uso, realidade tão típica da sociedade insensível, glacial, que tudo reduz a concepções relativistas e mecanicistas.

                Gurden e Yamanaka sepultam essa linha de pesquisa.

                Com efeito, se do próprio corpo humano, vivo, extraem-se células, que se reprogramam, como disse, ao estágio inicial de amplas potencialidades – e as células são do próprio corpo do paciente o que, por óbvio, diminui, caracterizadamente, o índice de rejeição – por que permanecer na matança de embriões humanos, fazendo perdurar quadro de verdadeiro holocausto?

                A vida humana jamais pode ser manipulada, torturada, trucidada, assassinada!

               Nos dias de hoje, de tanta superficialidade, de tanta massificação, de tanta violência precisamos assumir comportamentos claros e concretos contra esse estado de coisas.

                Precisamos testemunhar, com ações, o empenho na formação de sociedade verdadeiramente humanista, importando então, aqui e agora, reviver palavras tão lúcidas de Emmanuel Mounier:

“A idéia de um gênero humano com uma história e destinos coletivos, donde não pode ser separado nenhum destino individual, é uma idéia básica para os Padres da Igreja. Laicizada, vai animar o cosmopolitismo do século XVIII e mais tarde o marxismo. Opõe-se à idéia de uma descontinuidade absoluta entre as liberdades ( Sartre ) ou entre as civilizações ( Malraux, Frobenius ). Opõe-se a todas as formas de racismos ou castas, à eliminação dos anormais, ao desprezo pelo estrangeiro, à totalitária negação do adversário político, numa palavra e em geral, à constituição de homens à parte: um homem mesmo diferente, mesmo degradado, é sempre um homem, a quem devemos permitir que viva como homem.”
( consulte-se: O Personalismo – pg. 55, grifei ).

                O próprio existencialismo de Jean Paul Sartre não deixa de abordar o componente transcendente no humanismo, encarando-o, todavia, na subjetividade humana. Diz Sartre:

 “Existe, no entanto, outro sentido para o humanismo, que significa, no fundo, o seguinte: o homem está constantemente fora de si mesmo; é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz o homem existir e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele é capaz de existir; sendo essa superação e apropriando-se dos objetos apenas em relação a essa superação, o homem está no coração, no centro dessa superação. Não há outro universo senão um universo humano, um universo da subjetividade humana. Essa ligação da transcendência, como constitutiva do homem – não no sentido em que Deus é transcendente, mas no sentido da superação – e da subjetividade no sentido em que o homem não se encontra encerrado nele mesmo, mas sempre presente num universo humano, é o que denominamos de humanismo existencialista.”
( consulte-se: O existencialismo é um humanismo – 9g. 43-44, grifei ).

                Todavia, aqui pondero com Mounier:

O ultrapassar da pessoa por si própria não é somente projeto, é elevação ( Jaspers ), passar para além de. O ser pessoal é um ser feito para se ultrapassar. Tal como a bicicleta ou o avião só se equilibram quando se movem para lá de uma dada força, o homem só se mantém de pé com um mínimo de força ascensional. Quando perde altura não se rebaixa ao plano de uma qualquer humanidade moderada, ou, como foi dito, da animalidade, mas muito abaixo do animal: nenhum ser vivo, a não ser o homem, inventou as crueldades e baixezas em que este ainda se compraz.”
( consulte-se: O Personalismo – pg. 87, grifei ).

                Que a leitora e o leitor me perdoem esses devaneios.

                Saúdo, porque em coerência plena com tudo o que até aqui disse, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – que, justamente ao ensejo das discussões travadas sobre a morte de embriões humanos para – já o afirmei e repito – o tratamento fracassado e infrutífero das doenças degenerativas, saúdo a CNBB, enfatizo, porque criou a Semana Nacional em Defesa da Vida, que celebramos de 1º a 7 de outubro, anualmente, e destacou o dia 8 de outubro, como o Dia do Nascituro.

                Que o Parlamento brasileiro não se acovarde diante da tremenda manipulação com que esse tema é tratado e, expressando firme compromisso com a sociedade humanista, aprove, enviando à sanção presidencial, o Estatuto do Nascituro, a que componha, com o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso, o quadro normativo capaz de garantir a vida humana nos seus momentos mais frágeis: o tempo de iniciar e o tempo de finalizar.


               

domingo, 23 de setembro de 2012

PRIMAVERA

                                                


                 21 de setembro e, com ele, os pingos, que são gotas, que se fazem sucessivas, a chuva, então, anunciada pelos solenes, e ritmados, trovões e os relâmpagos, que clareiam o céu de Brasília.
                 O telefone toca e André, meu neto de 5 anos, do outro lado da linha: “Vovô, viva a chuva! Ela chegou!”.
                 Sim, ela chegou, e o chegar, para mim, ganha sentido tão mais proveitoso quando não significa acabar, mas sim surgir.
                 Nós não nos vocacionamos como seres acabados, seja porque terminados, ou porque liquidados.
                 Ainda que a aridez queira ressecar nossos dias, mesmo que a secura nos entorpeça e nos faça vacilar, a respiração ofegante, o ar que não está límpido, há sempre, em nós, a voz infantil, que não se sujeita a critérios de conveniência protocolar; que não abafa a espontaneidade, como expressão honesta do que se sente; que celebra o novo tempo, porque viver é realizar, de novo, o novo.
                 A história não se repete, simplistas e superficiais são os corifeus dessa visão, porque não há o fim da história.
                 Quem chega, quem surge, mesmo que o faça em tempo previsível, jamais chega como antes chegara.
                 A possibilidade deixa sempre em aberto a permanente construção da existência e impede o ponto final.
                 Na verdade, a possibilidade é a certeza da infinitude, a garantia de se estar além dos limites, e transcender.
                 Tantas e tantos que se arvoram nas ramificações do desvairado egocentrismo e da uniformizada truculência na ilusão de se constituírem nos supremos árbitros dos demais, mergulhados estão no círculo hermético em que se encerram, e então terminam.
                 Primavera: surgem flores, pela vez primeira; ressurgem flores, de tantas vezes e modos. A natureza surge e ressurge na profusão de cores, alegria da heterogeneidade, encanto do que se faz diverso, profusão de vida nascente.
                 “Vovô, viva a chuva! Ela chegou!”


                                                                        Paz e Bem! 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

MENSALÃO

                                                    


         Fez-se a tentativa de espetáculo midiático.

         Tentativa em vão.

         Os jogos olímpicos sobrepujaram, em muito, na audiência televisiva o chamado “julgamento do século”. Precipitação óbvia para evento em século que mal se inicia.

         As cadeiras, no plenário da Corte suprema, estão vazias, vazio está o enorme espaço defronte ao prédio, inutilmente cercado, onde se notam presenças esparsas de seguranças ociosos.

         O poder judiciário ressente-se – isso é manifesto – de conhecimento público, mormente nos estamentos superiores de sua estruturação.

         O linguajar hermético; os pronunciamentos longos, volteados de erudição, afastam os jurisdicionados.

         O ato de julgar, para mim, é antes de tudo ato de ensinar. Não pode ser visto como ato excelso de impor o que decidido foi. E, para ensinar, devemos nos colocar na mesma perspectiva de quem busca o  ensinamento,  para que o aprendizado aconteça.

         E já que apresento a palavra aprendizado, outro aprendizado extraio da cobertura jornalística desse evento.

         Considero superficial o tratamento da matéria, tomado o fato em si, por suas circunstâncias acessórias, vale dizer, por idiossincrasias de seus personagens julgadores, ora a motivar desencontros entre os mesmos, ora a atrair especulações sobre o se e o como decidirão a causa.

         O chamado “mensalão”, por seu debate, deve conduzir-nos a reflexão mais profunda, para muito mais além do restrito exame de se saber se os réus serão condenados, ou absolvidos e se, uma vez condenados, vão para a cadeia, ou não vão.

         Certo é que condutas de grave reprovação, dentre as quais se insere a utilização de verbas públicas para atividades de corrupção, objetivando a permanência no poder, pelo poder, assumidas sistematicamente – em quadrilha, pois – acaso judicialmente provadas, proporcionalmente devem conduzir à restrição à liberdade de locomoção, ao cárcere, e ao ressarcimento dos cofres públicos, ou então o sentimento de injustiça, expresso na impunidade, nos perpassará a todos.

         Contudo, a reflexão mais profunda reside sobre a imperativa necessidade de mudar o sistema político-eleitoral, que tudo isso facilita, e enseja.

         Para isso, mecanismos hão de ser fixados. Não pretendo esgotá-los, aqui. Aliás, buscar esgotar o tema afigura-se-me comportamento presunçoso.

         Eis porque, apresento dois ( 2 ) pontos, a meu juízo fundamentais.

         O primeiro: a atividade política não deve ser identificada como atividade profissional. Não se pode permitir a realidade na qual assim se caracterize a definição profissional de alguém: “político”.

         Como impedi-lo?

         Muito simples: estabelecer-se mandato único para todos os cargos eletivos em cinco ( 5 ) anos, vedada a reeleição para o mesmo, ou para qualquer outro cargo eletivo, por quem acaba de cumprir mandato para o qual foi eleito, passando, a partir de então, a se submeter a período de dez ( 10 ) anos de “quarentena”, assim só se legitimando a disputar eleições, de novo, uma vez transcorridos os dez ( 10 ) anos.

       Durante o decênio, a pessoa retoma suas atividades profissionais, das quais se afastara por cinco ( 5 ) anos, quando do desempenho do mandato e, se o desejar, concomitantemente desenvolve tarefas dentro da agremiação partidária a que se filiou. Com isso, inclusive, o partido ganha mais relevo do que o membro do partido, e o debate político insere-se no plano do ideário pertinente à formação da sociedade e de toda a gama de propostas à consecução dos objetivos verdadeiramente comunitários, ao invés de centralizar-se na pessoa, ou no “cacique”, do partido político.

         O segundo ponto conduz-me à adoção do financiamento público das campanhas eleitorais, afastada, portanto, qualquer intervenção de pessoas físicas e jurídicas que, depois e por óbvio, irão “cobrar a conta” do eleito, para ressarcimento dos gastos feitos com, e em nome do candidato.

         Agora, para que a adoção do financiamento exclusivamente público das campanhas cumpra com o seu objetivo, importa estabelecer efetivo controle dos gastos de campanha pelo Ministério Público eleitoral, pela Justiça eleitoral, contando com o concurso de equipes técnicas dos Tribunais de Contas a que se preserve a total igualdade de condições dos candidatos na veiculação de suas propostas e se reprima, eficazmente, o abuso do poder econômico, que remanesça.

         Encerro com preciosa contribuição do ensinamento social da Igreja, como está posta no Compêndio da Doutrina Social da Igreja a propósito das tarefas da comunidade política:

168 A responsabilidade de perseguir o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil de que é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os cidadãos. O indivíduo humano, a família, os corpos intermédios não são capazes por si próprios de chegar a seu pleno desenvolvimento, daí serem necessárias as instituições políticas, cuja finalidade é tornar acessíveis às pessoas os bens necessários – materiais, culturais, morais e espirituais – para levar uma vida verdadeiramente humana. O fim da vida social é o bem comum historicamente realizável.”
( leia-se: Compêndio da Doutrina Social da Igreja – pg. 103, grifei ).




    
.

                



sexta-feira, 6 de julho de 2012

"Estão mortos, estão sossegados"






              Essa foi a frase que ouvi, de homem jovem, funcionário público grevista do Arquivo Nacional, no piquete montado à entrada da sede, que nos impediu a mim, e a alguns membros, de equipe da Comissão Nacional da Verdade, de realizarmos trabalho nas dependências desse serviço público.

              Essa frase perturbou-me, perturba-me.

              Ela vem como resposta, em momento de diálogo que com o grupo desenvolvia, a ponderação minha sobre o trabalho da Comissão da Verdade como missão perene de resgate de tantas, e tantos, que ofertaram a própria vida, paulatinamente torturada, em defesa das liberdades democráticas, dentre elas o próprio direito de greve ante o Estado ditatorial.

              Essa frase indica a incapacidade de transcender-se para valores maiores na formação de sociedade humanista, tais: o compromisso com os marginalizados, os excluídos de todos os setores, pelo sistema economicista, que reduz a pessoa a mero dado numérico na relação custo-benefício; o empenho na educação, na cultura e na saúde, aqui contemplada a saúde alimentar, como prioritárias na formação do corpo social; o respeito à divergência, conduzindo à solução pacífica dos conflitos. Essa frase, portanto, manifesta o apego ao pragmatismo, o circunscrever-se a existência humana ao plano estritamente material.

              Essa frase é matriz de esquecimento. Retrata o círculo fechado do egocentrismo. Sepulta o ideal de tantas, e tantos, quebrando o elo que possibilita o presente como aprendizado do passado a movimentar o futuro. Essa frase exalta o instante como a própria história, assim sem sentido, assim sem rumo, entregue ao primeiro aventureiro despótico, que dela queira lançar mão. Mas a história é justamente o incessante encontro do passado, no presente, animando o futuro, em função daqueles valores maiores na formação da sociedade humanista. Por tal fundante razão, a memória é o respeito à história dos que assim se comportaram em vida, entregando a própria vida.

              Essa frase é desrespeitosa para com avós, avôs; mães, pais; filhas, filhos; netas, netos; familiares e amigos dos que estão mortos, mas são, sempre, para elas e para eles, vivos.

              Memória não é lembrança, memória é passado vivo, que vale a pena viver.

              Memória é, assim, verdade porque a verdade é o fio condutor na união do passado, presente e futuro.

              Encerro este artigo fazendo memória de Albert Camus, reiterando aqui frase sua, tão sábia, com a qual iniciei o artigo que escrevi mês passado.

A lucidez supõe a resistência às tentações ao ódio e ao culto da fatalidade.”

                                              

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Livres e verdadeiros

                 Deparo-me, nesses dias em que meu ser viu-se envolto em turbilhão de emoções porque me revolvem o passado, comprometem-me com o presente e miram a esperança no futuro, deparo-me com texto jornalístico de Albert Camus, que deveria ter sido publicado em 25 de novembro de 1939, no jornal “Le Soir Republicain”, mas proibido foi.

              Destaco frase tão lúcida, justamente sobre a lucidez:

“A lucidez supõe a resistência às tentações do ódio e ao culto da fatalidade.”

              Assim o é, efetivamente.

              A mulher e o homem, bloqueados em si mesmos, cultivam, cotidianamente, a certeza da infalibilidade pessoal no que pensam, e fazem, por isso que não toleram a divergência, e a suprimem. Expressam, ancorados naquela certeza da infalibilidade pessoal, o “culto da fatalidade”, ou seja, o que pensam, e fazem, é inapelavelmente certo, portanto acima de contestações, inútil o diálogo.

              A quem assim é, e como tal age, Albert Camus propõe a lucidez: “resistir às tentações do ódio e ao culto da fatalidade”.

O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai.”

              Eis-me outro ensinamento tão valioso.

              Tão valioso porque me mostra que não somos, porque pessoa o somos, seres manipuladores, ou manipulados; seres aferidos exclusivamente por critérios economicistas, ou tecnológicos.

              Somos, isso sim, pessoas livres e verdadeiras porque a traçar a própria identidade, na própria história, não só pessoal, mas comunitária, porque tanto o eu como o nós não subsistem isolados em si mesmos, mas vida há quando o eu no nós existe e o nós no eu habita.

              Por que tanto resistir à proposta do encontro pessoal e comunitário?

              Adverte Albert Camus:

“Mas a verdade e a liberdade são senhoras exigentes, pois elas têm poucos amantes.”
( grifei ).

              Todavia, aponta o caminho:

“É preciso, pois, tentar um método ainda completamente novo, que seria a justiça e a generosidade. Mas estas só se manifestam em corações já livres e em espíritos já clarividentes.”
( grifei ).

              A propósito, vento, na transcrição que antes fiz, significa espírito, e a transcrição, que é do evangelista João, assim se completa como, digo eu, completa-se toda a mulher e todo o homem, livre e verdadeira/o, que se supera a si mesma/o:

“O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é também todo aquele que nasceu do Espírito.”
( Jo. 3,8 ).