sábado, 31 de março de 2012

A CRISE NO PODER JUDICIÁRIO

                                          


         Antes de tudo, importa esclarecer que crise não deve ser entendida, como comumente a imprensa propaga, sem deixar de trair o seu viés sensacionalista, no sentido de quadro de periclitante desestabilização a provocar sentimento de insegurança e despertar vocações autoritárias como solução eficaz a por cobro a tal inquietude.

         Verdadeiramente, não é assim.

         Crise reflete a imperiosa necessidade de por no centro da reflexão determinada realidade para que seja avaliada criteriosamente a fim de que responda ao que dela se espera, no tempo em que se vive.

         No dinamismo da vida, a crise não assusta, não amedronta, antes é imprescindível ao aperfeiçoamento das instituições postas a serviço da mulher e do homem e, se se trata de crise pessoal, ao aperfeiçoamento do próprio ser humano.

         A crise é momento de purificação, no sentido de encontrar-se com a própria verdade, afastadas as manipulações de todas as colorações.

         Isso estabelecido, nos dias de hoje digo que há crise no Poder Judiciário.

         Nesse tópico, e de plano, o sentimento partilhado por tantas e tantos, brasileiras e brasileiros, é de que o Poder Judiciário, mormente nas suas instâncias colegiadas superiores – os Tribunais – distancia-se, excelsamente, da população a que deve servir.

         O tratamento de excelência, conferido a todos os que desempenham cargos públicos de maior responsabilidade, não significa isolá-los em pedestal inatingível de contemplação, mas destacá-los porque neles reconhecidas atitudes, condutas concretas, de serviço idôneo e competente ao bem comum.

         Digo sempre que o ato de julgar, decidindo conflitos inerentes à condição humana, é bem menos ato de impor, e muito mais ato de ensinar. Se, portanto, magistradas e magistrados vivessem o magistério em seu desempenho diuturno, por certo o envolvimento comunitário de todos seria a nota marcante de sua digna profissão.

         Vocacionados, pois, ao ensinamento do bem viver, conseqüência natural do envolvimento comunitário, pelas decisões que proferem, disso decorre necessariamente o dispor-se ao exame de seu desempenho funcional por colegiado de âmbito nacional, de composição não corporativa que contemple, portanto, e como membros, também representantes de outros segmentos da sociedade.

         O Conselho Nacional de Justiça – CNJ – tem essa exata dimensão constitucional.

         Comprometidos com o ensinamento do bem viver, reitero, conseqüência natural do envolvimento comunitário, as decisões que prolatam hão de expressar a sensibilidade
capaz de perceber e responder às controvérsias do tempo histórico vivido. Isso nada tem a ver com o sentir-se refém do sensacionalismo midiático a estabelecer o padrão de conduta do politicamente correto. Tem tudo a ver, sim, com a formação de sociedade humanista calcada no respeito à vida em todas as suas dimensões; na solidariedade permanente para com os mais fracos, desamparados e marginalizados – e, aqui, como compreender decisão colegiada que inocenta corruptores de meninas-crianças de 12 anos de idade, sob o fundamento de que já estão prostituidas? -;  na punição efetiva dos governantes, legisladores, magistrados e todos os demais servidores públicos que assumem comportamentos da improbidade administrativa e ilícitos criminais.

         Assim, jungidos a relevante serviço comunitário, a magnitude da missão de julgar não se compraz com o retardamento na prestação jurisdicional.

         A sociedade brasileira não pode experimentar os sentimentos de impunidade e de morosidade causados pela demora na solução dos litígios judiciais.

         Se o aparato normativo propicia manobras de retardamento de que se valem as partes em contenda judicial, todavia posicionamento prático, sem deixar de ser fundamentado; célere, sem deixar de ser lacunoso; objetivo, sem deixar de ser preciso, mas evitando-se longas teorizações, digressões e abstrações em muito contribui para que se supere a procrastinação.

         Afinal, o empenho para com a Justiça supera e ultrapassa o cotidiano da mentalidade burocrática e das práticas ritualísticas.

         A propósito, bem observa o Compêndio da Doutrina Social da Igreja:

202. A justiça mostra-se particularmente importante no contexto atual, em que o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, a despeito das proclamações de intentos, é seriamente ameaçado pela generalizada tendência a recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade e do ter. Também a justiça, com base nestes critérios, é considerada de modo redutivo, ao passo que adquire um significado mais pleno e autêntico na antropologia cristã. A justiça, com efeito, não é uma simples convenção humana, porque o que é justo não é originalmente determinado pela lei, mas pela identidade profunda do ser humano.
203. A plena verdade sobre o homem permite superar a visão contratualista da justiça, que é visão limitada, e abrir para a justiça o horizonte da solidariedade e do amor. A justiça sozinha não basta, e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor. Ao valor da justiça, a doutrina social da Igreja aproxima o da solidariedade, enquanto via privilegiada da paz.”
( CDSI – pgs. 122-3 ).

         Bem cabem, e para encerrar, essas palavras, igualmente partilhadas por Aristóteles e Tomás de Aquino, avivadas pelo filósofo Olinto Pegoraro, no seu livro “Ética é Justiça:

“A justiça é a virtude perfeita que nos relaciona com os semelhantes. Por isso, muitas vezes se diz, que a justiça é virtude preclaríssima; nem Vésper, lindíssimo astro vespertino, e nem Lúcifer, luminosíssima estrela matutina, brilham como a justiça”.
( obra citada – pág. 10 ).

                                               

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

                                                   FRATERNIDADE



         Por ocasião da Quaresma, e até por conferir-lhe o significado de imprescindível momento de pausa para reflexão e avaliação de nosso viver, para que ele não se brutalize na indiferença repetitiva do cotidiano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB -, anualmente, promove a Campanha da Fraternidade, apresentando tema e lema motivadores de posicionamento nosso concreto.

         Para esse ano de 2012, o tema que se abre a partir de 22 de fevereiro é: “A fraternidade e a saúde pública”, e o lema: “Que a saúde se difunda sobre a terra”.

         De minha parte, saúdo a escolha porque, nos dias de hoje, a insensibilidade e a falta de desvelo por quem, profissionalmente, optou por cuidar dos doentes é manifesta e corriqueira.

         Todavia, esse comportamento não se reduz a tantas e tantos profissionais da saúde, mas atinge, indiscriminadamente, a todos nós. Atinge nossa época a ponto de se dizer que não vivemos uma “época de mudanças”, mas uma “mudança de época”.

         Considero que, efetivamente, inauguramos a “mudança de época”.

         O iluminismo racionalista – “penso, logo existo”, na célebre máxima de René Descartes –, centrando na razão humana o princípio e o fim das aspirações e realizações da mulher e do homem, sucumbiu.

         Em excelente artigo, intitulado “A idéia de fraternidade em duas Revoluções: Paris 1789 e Haiti 1791”, e publicado em coletânea de artigos a compor o livro “O Princípio Esquecido”, Antônio Maria Baggio, organizador dessa publicação, com muita propriedade ensina:

                     A fraternidade é capaz de dar fundamento à idéia de uma comunidade universal, de uma unidade de diferentes, na qual os povos vivam em paz entre si, sem o jugo de um tirano, mas no respeito das próprias identidades. E justamente por isso a fraternidade é perigosa. Talvez seja o motivo pelo qual, na mentalidade acadêmica e política, não se aceita considerá-la uma categoria política. Mas a fraternidade – entendida justamente em sua dimensão política – aparece até na correspondência diplomática da Idade do Bronze tardia.
                    Devemos ter a coragem de recuperá-la, se quisermos superar a insuficiência antropológica do Iluminismo, se quisermos encontrar um fundamento melhor para a idéia do homem, capaz de sustentar o golpe que a Revolução negra desferiu contra o falso universalismo que a cultura europeu-ocidental interpretava – e, talvez, ainda hoje interprete – princípios declarados universais.
                    Claro, a categoria da fraternidade tem um fundamento religioso explícito; e é em virtude disso – das contribuições que as religiões deram para o conhecimento do homem – que podemos falar de liberdade e igualdade. Descobrimos que somos livres e iguais porque somos irmãos. O pensamento moderno desenvolveu a liberdade e a igualdade como categorias políticas, mas não fez o mesmo com a fraternidade...No entanto, a fraternidade é o princípio regulador dos outros dois princípios: se vivida fraternalmente, a liberdade não se torna arbítrio do mais forte, e a igualdade não degenera em igualitarismo opressor... Ninguém pode se conhecer totalmente por si mesmo. São os outros, sempre, que completam a visão que nós – como indivíduos e como povos – temos de nós mesmos. São os outros que nos dizem, de diversas maneiras, quem realmente somos.”
                         ( O Principio Esquecido – pg. 53/4 – grifei ).

                          Ou, para trilharmos o seguro pensamento do filósofo Emmanuel Mounier:

                        “A pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade. A palavra existir indica pelo seu prefixo que ser é expandir-se, exprimir-se.”
                                            ( O Personalismo – pg. 66 – grifei ).

                           A razão, enclausurada em si mesma e afeiçoada ao delírio da técnica, como expressão de sua infalibilidade, gera a solidão egocêntrica: os outros, deles me utilizo a pretexto de favorecê-los.

                           Eis porque sem cheque caução nego atendimento médico a quem dele necessita; eis porque se este hospital não está conveniado com meu plano de saúde, não sou atendido; eis porque quem me chega ao pronto socorro, considero-o verdadeiro estorvo, ou porque atrapalha o meu sono; meu programa televisivo; minha refeição e por aí se vai nessa trilha glacial da indiferença humana.

                              Mario Quintana, escritor gaúcho, oferece-nos esse pequeno texto, tão lúcido, que não posso guardá-lo, na leitura que dele faço, só para mim. Nada pode ser só para mim. Eis o texto:

                  “DEFICIÊNCIAS

                  Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono de seu destino.

                  Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.

                  Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

                  Surdo é aquele que não tem tempo de um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

                  Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

                  Paralítico é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

                  Diabético é quem não consegue ser doce.

                  Anão é quem não sabe deixar o amor crescer.

                  E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois miseráveis são todos os que não conseguem falar com Deus.”
( in – Por Trás da Palavra  - janeiro-fevereiro de 2012 – pg. 2 ).

         O Compêndio da Doutrina Social da Igreja põe-se no mesmo posicionar-se de Mario Quintana quando ensina:

“A semelhança com Deus põe em luz o fato de que a essência e a existência do homem são constitucionalmente relacionadas com Deus do modo mais profundo. É uma relação que existe por si mesma, não começa, por assim dizer, num segundo momento e não se acrescenta a partir de fora. Toda a vida do homem é uma pergunta e uma busca de Deus. Esta relação com Deus pode ser tanto ignorada como esquecida ou removida, mas nunca pode ser eliminada. Dentre todas as criaturas, com efeito, somente o homem é capaz de Deus ( “homo est Dei capax ). O ser humano é um ser pessoal criado por Deus para a relação com Ele, que somente na relação pode viver e exprimir-se, e que tende naturalmente a Ele.”
(Compêndio da Doutrina Social da Igreja nº 109 – pg.73).

domingo, 29 de janeiro de 2012

CORRUPÇÃO


         A reflexão, que procedo, insere-se em espaço destinado à cidadania.

         É de muito relevo à Doutrina Social da Igreja o chamado princípio da subsidiariedade, que significa posicionar as instituições oficialmente engendradas pela razão humana, ou seja, o Estado e todo o aparato de serviços públicos executivos, legislativos e judiciais postos à satisfação das necessidades da pessoa humana, na vida em sociedade, em plano secundário. Vale dizer: toda essa estrutura executiva, legislativa e judicial não pode chamar a si a definição absoluta das questões sociais, subjugando, alienando, excluindo a pessoa humana do exercício de sua subjetividade criadora, manifestada singular ou comunitariamente.

         É que a pessoa humana, única e irrepetível justamente a que descubra o que lhe é próprio, para que não se reduza a grão de areia na extensão amorfa do deserto, o que lhe é próprio partilhe com os demais que, por sua vez, a ela lhe ofertam o seu peculiar e, então, o eu do indivíduo case-se com o nós do social.

         Somos, portanto, seres relacionais no dinamismo da criatividade de cada qual.

         Mas, de tempos para cá, o que se tem?

         Esses “corpos” executivos, legislativos e judiciais encorparam-se e encorpam-se cada vez mais e, em total menosprezo às verdadeiras necessidades da pessoa humana, fecham-se em sistema de barganhas, expressão nítida do exercício do poder pelo poder.

         Muito longe se está do magistério da Doutrina Social da Igreja a ensinar:

“410. Aqueles que têm responsabilidades políticas não devem esquecer ou subestimar a dimensão moral da representação, que consiste no empenho de compartilhar a sorte do povo e em buscar a solução dos problemas sociais. Nesta perspectiva, autoridade responsável significa também autoridade exercida mediante o recurso às virtudes que favorecem o exercício do poder com espírito de serviço ( paciência, caridade, modéstia, moderação, esforço de partilha ); uma autoridade exercida por pessoas capazes de assumir autenticamente, como finalidade do próprio agir, o bem comum e não o prestígio ou a aquisição de vantagens pessoais.”
( Compêndio da Doutrina Social da Igreja – pg. 231/2 – grifos do original e meu ).

         O componente moral da atividade política não pode ser extirpado.

         Se o extirparmos, incidimos na vaidade vazia dos títulos de tratamento – excelências e quejandos -; mercadejamos inescrupulosamente – e aqui me lembro de expressão de um político que a beneplacitar ato de governo arbitrário, candidamente, disse: “às favas com os escrúpulos”; e de outro que, deslavadamente conspurcando máxima tão cara a nós, franciscanas e franciscanos, disse: “é dando que se recebe” – com a função pública.

         O ensinamento da Doutrina Social da Igreja adverte-nos para que:

A administração pública em qualquer nível – nacional, regional, municipal -, como instrumento do Estado tem por finalidade servir aos cidadãos. Posto ao serviço dos cidadãos, o Estado é gestor dos bens do povo que deve administrar tendo em vista o bem comum. Contrasta com esta perspectiva o excesso de burocratização, que se verifica quando as instituições ao tornarem-se complexas na organização e pretendendo gerir todos os espaços disponíveis, acabam por se esvaziar, devido ao funcionalismo impessoal, à burocracia exagerada, aos interesses privados injustos e ao desinteresse fácil e generalizado. O papel de quem trabalha na administração pública não se deve conceber como algo de impessoal e burocrático, mas como uma ajuda pressurosa para os cidadãos, desempenhado com espírito de serviço.
( Compêndio da Doutrina Social da Igreja – pg. 232 – grifos do original e meu ).

         A burocratização está na razão direta do encobrimento da verdade.

         Quanto mais papel, quanto mais morosidade, quanto mais indefinição, mais as situações não se põem às claras, e tudo permanece inconcluso, impune.

         Para arrematar, mais uma vez a sabedoria da Doutrina Social da Igreja:

Entre as deformações do sistema democrático, a corrupção política é uma das mais graves porque trai, ao mesmo tempo, os princípios da moral e as normas da justiça social; compromete o correto funcionamento do Estado, influindo negativamente na relação entre governantes e governados; introduzindo uma crescente desconfiança em relação à política e aos seus representantes, com o conseqüente enfraquecimento das instituições. A corrupção política destorce na raiz a função das instituições representativas, porque as usa como terreno de barganha política entre solicitações clientelares e favores dos governantes. Deste modo, as opções políticas favorecem os objetivos restritos de quantos possuem os meios para influenciá-las e impedem a realização do bem comum de todos os cidadãos.”
(Compêndio da Doutrina Social da Igreja – pg. 232- grifos do original e meu ).

         Não é à toa que vozes da cidadania gritam.

         Ainda incipientes, mas presentes.

         Temos bandeiras porque lutar, até que se consolidem: o fim das deliberações secretas nos corpos legislativos; a imediata incidência da “Lei da Ficha Limpa”, lídimo anseio da vontade popular porque posta em iniciativa legislativa e, portanto, inequívoca concretude da democracia direta; o fim do sigilo do processamento criminal de pessoas que gozam de prerrogativa de função nos corpos judiciais, como primeiro passo ao fim da prerrogativa de função em si; o fim do aparelhamento da administração pública, motivado por troca espúria de favores políticos, nos corpos executivos.

         Encerro com as palavras de João Paulo II:

“Uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado, como a história demonstra.”
( Carta Encíclica Centesimus Annus – nº 46 ).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

TESTEMUNHO

         O que me é pedido faz-se em testemunho pessoal no plano da dimensão sócio-política.

         Exerci, em meu País, o cargo de Procurador-Geral da República nos anos de 2003 a 2005.

         A questão mais importante, que surgiu nesse período, centrou-se na defesa da vida.

         Com efeito, o Parlamento brasileiro autorizou, sob o pretexto de cura possível de doenças degenerativas, e outras mais, a pesquisa com células-tronco embrionárias.

         Questionei a constitucionalidade dessa lei, porque utilizar embriões humanos em tal tipo de pesquisa significar matar o embrião humano, matar a vida humana em seu estágio inicial pela simples e definitiva razão de que na concepção há a vida humana porque na concepção, no exato instante da união dos gametas masculino e feminino, define-se o código genético do ser concebido, que não se altera enquanto viver.

         Pelo olhar da religião, em perfeita sintonia com o da ciência – e na ciência jurídica o primeiro de todos os princípios constitucionais é o da inviolabilidade da vida humana -, tem-se no Evangelho de S. João, no capítulo 10, versículo 10, que: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância.”

         Portanto, a presença do Deus-Amor na história humana é de nos ensinar a primazia da vida em todas as suas dimensões – humana, animal e ambiental – e sobre toda e qualquer construção sócio-política e cultural.

         Nos dias de hoje, a ciência volta-se para outra linha de pesquisa, valendo-se das chamadas células-tronco adultas, ou seja, as que são obtidas da própria pessoa, sem o sacrifício de sua vida, e resultados positivos vão sendo obtidos, passo a passo, nessa abordagem.

         O próprio Vaticano associou-se com a sociedade biofarmacêutica NeoStemInc., em maio de 2010, para, em conjunto, incentivarem a pesquisa e sensibilizarem a opinião pública sobre os tratamentos terapêuticos com células-tronco adultas.

        Por ocasião dos debates sobre essa questão vital, aqui no Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil instituiu a “Semana Nacional em Defesa da Vida”, celebrada de 1 a 7 de outubro, a cada ano, e o dia 8 de outubro como o “Dia Nacional do Nascituro”.

         Convido a todas as irmãs e a todos os irmãos, presentes neste Capítulo Geral que, nos seus respectivos Países, promovam junto às respectivas Conferências Episcopais a instituição de Semana e do Dia em Defesa da Vida e do Nascituro.

         O seguimento de Francisco conduziu-me a outra atitude em minha vida.

         Terminado o meu mandato como Procurador-Geral da República, e passado breve período, não permaneci no desempenho de funções públicas oficiais.

         Com minha esposa Ângela, fomos compartilhar da vida das irmãs e dos irmãos dependentes químicos, sob a perspectiva do método chamado “amor exigente”, nas comunidades conhecidas como “Fazenda do Senhor Jesus”.

         Nesses anos todos pude descobrir o que, para mim, é o verdadeiro sentido da alteridade.

         O outro não está fora de mim. O outro é dentro de mim, por isso posso envolver-me (= movimentar-me para dentro) com ele.

         Creio que essa foi a forte percepção de Francisco de Assis, a principiar com o beijo no irmão leproso, a respeito do amor incondicional de Jesus, até culminar na morte de cruz, por todos nós.

         Somos seres relacionais, como relacional é sempre a manifestação da Trindade Santa, que impede que Deus seja solidão, mas eternamente é comunhão.

         Não devemos desanimar, mas sempre caminhar, e no caminho acolher e convidar continuadamente.

         Encerro oferecendo-lhes a “Oração da Serenidade”, que aprendi com minhas irmãs e meus irmãos da Fazenda Senhor Jesus, e de quem me tornei feliz dependente:

“Senhor conceda-me a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar. Coragem para modificar aquelas que eu posso. Sabedoria para distinguir umas das outras.”


                                                                               Paz e Bem!

        

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Capítulo Internacional Franciscano

         Dádiva de Deus, Ângela e eu, termos participado ativamente do Capítulo Geral Internacional Franciscano da OFS, em S. Paulo.

         Irmãs e irmãos de tantas partes do mundo: dos continentes africano, asiático, europeu e das Américas do sul, central e norte.

         Procedeu-se à avaliação do triênio cumprido pelo atual Conselho Internacional – 2009/2011 – com vistas ao triênio seguinte – 2012/2014 – pois que ao nível de Conselho Internacional o mandato é de 6 anos.

         Esse foi o 13º Capítulo Internacional pela primeira vez acontecido na América do Sul e sediado no Brasil.

         De par com o natural enriquecimento causado pelo encontro de diversas culturas, impressionou-me a vitalidade das irmãs e irmãos seculares da África, Ásia, Europa oriental e América latina no viver a mensagem de Francisco de Assis.

         Muitos os desafios porque passam, até perseguições, mas permanecem firmes, impulsionados pela vivência da fé e pelo carisma franciscano em testemunho claro de pertença à forma de vida abraçada.

         Zelosos, alegres, firmes, elas e eles não se detêm.

         Realmente, suas mãos estão no arado, e não olham para trás.

         O local que desfrutamos nos 7 dias era retirado. Propiciou-nos o recolhimento, celebrações litúrgicas, apresentações temáticas e manifestações culturais, tudo integrado à natureza, espaçosa e em flor.

         Testemunhos eloquentes foram partilhados. As misérias da guerra civil em terras de Angola e Ruanda. O desastre incomensurável no Haiti. A missão do franciscano secular.

         Conto-lhes, leitores, algo tão denso: irmãzinha secular francesa – e digo irmãzinha porque tão doce, suave e dedicado o seu ser – mostrou-me foto de uma mulher de Ruanda, acamada em um hospital, padecendo dores tantas e em grave quadro de saúde, causado pela AIDS, cega em seu leito. Pois essa mulher de Ruanda, em conversa com nossa irmãzinha francesa, que dela cuida com desvelo, porque assessora internacional do CIOFS justamente para os países africanos de língua francesa, poucos dias antes da realização do Capítulo, baixinho dissera-lhe: “tenho falado com Deus para que as dores, que padeço, ofereço-as ao bem do Capítulo, que vai acontecer.

        De minha parte, e relato minha intervenção por último, eis que mesmo pequena diante do que acabo de narrar, o que falei dividi em duas reflexões: uma sobre o empenho na defesa da vida, principalmente do nascituro; e a outra pelo desapego a cargos e títulos públicos porque, para mim, em minha vida, o seguimento de Francisco de Assis a isso conduziu-me, e me sinto tão feliz.

         Feliz também fiquei quando, ao citar o acontecido com nossa Conferência episcopal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB -, que, por ocasião dos debates sobre o uso dos embriões humanos para fins terapêuticos, instituiu a Semana Nacional em Defesa da Vida, de 1 a 7 de outubro, e o Dia Nacional do Nascituro, dia 8 de outubro, o Capítulo Internacional decidiu que todas as fraternidades seculares devem, junto às suas respectivas conferências episcopais, adotar ações concretas para que, também em cada país de que são nacionais, institucionalize-se a Semana Nacional em Defesa da Vida e o Dia do Nascituro.

                                                          Paz e Bem!  



domingo, 2 de outubro de 2011

OUTUBRO

         O mês de outubro, tenho-o em devida consideração.


         No dia 11, nasci.


         Nascer é luz, então expressar-se. É possibilidade de crescer, desenvolver-se, então conhecer-se porque os outros conhecer. É certeza de morrer, então compreender que não viemos do nada, nem para o nada voltaremos, mas o Sumo Bem nos gerou, mas de nós não se apossou para que, verdadeiramente livres, a Ele nos religássemos.


         A vida não é um fim em si mesmo. É encontro, ou desencontro; abrir-se e envolver-se com o próximo ou fechar-se e isolar-se. A vida é gesto concreto de amor do Sumo Bem para nós, mulheres e homens, porque com a vida Ele nos capacita a realizar nossa própria história, por mais breve que tenha sido, e, assim, existimos e somos.


         O mês de outubro, tenho-o em devida consideração.


         No dia 3, o trânsito de S. Francisco, ou seja, o Poverello de Assis conclui a sua história, marcando em tantos de nós, mulheres e homens, eu entre esses tantos, a nossa própria história.


         Francisco a Deus chamou-O de Sumo Bem, como as primeiras linhas desse artigo assim também me motivaram a chamá-LO.


         O Sumo Bem nos entregou a mãe-terra com frutos, flores, campos, aves, peixes e outros animais; o firmamento na sinfonia plena do sol, lua, estrelas, nuvens e o vento, que tudo percorre e impulsiona; a água e o fogo balanceando as estações do tempo. Tanto nos entregou, ensinando-nos a importância do cuidar.


         O Sumo Bem fez-se um de nós; viveu nossas alegrias e tristezas, esperanças e desapontamentos, peregrinou, incessantemente, em praças e vilas; recolheu-se, também, em oração e meditação, e suas vestimentas eram simples, seus gestos de acolhida, suas palavras claras e verdadeiras. Tanto assim se fez, ensinando-nos a importância de amar.


         Cuidar é amar em todas as suas dimensões. Amar é cuidar em todas as suas dimensões.

       
Cuido para que o 11 de outubro jamais se perca do 3 de outubro e amo o 3 de outubro para que o 11 de outubro jamais dele se esqueça.  

            


         



sexta-feira, 23 de setembro de 2011

PASSEATAS

         Pessoas indignadas vão às ruas. Protestam em passeatas alvejando a leniência, para não dizer cumplicidade, do aparato estatal para com a corrupção e a impunidade.

         Na verdade, esgarçaram-se os valores que sustentam a correta convivência humana.

         Hoje as pessoas, sanduíche em uma das mãos, ou copo de café; celular na outra; e sempre indo de um lado para outro não cessam de locomover-se.

         Refugiam-se em bandos, deixam-se hipnotizar pelo fascínio da era tecnológica, instrumentalizam-se para celebrar o vazio travestido em slogans vários do politicamente correto.

         Pessoas indignadas vão às ruas. Protestam em passeatas contra as mortes em sequência no trânsito, e pedem paz.

         Na verdade, sucumbimos nós também à voracidade da economia de mercado, que não cessa de produzir e ganhar, e produzir e ganhar, sem freios, e, ainda, aprovamos, com a nossa cotidiana adesão aos noticiários e filmes, exibidos no circuito comercial ou em nossos televisores, que propagam e enaltecem a violência, aprovamos todos a cultura do mais forte, do vencedor a qualquer preço.

         Que pessoas indignadas vão às ruas, e protestem, é salutar exercício da democracia, mas o protesto se esgota em si mesmo, e de nada adianta, se tomado como finalidade única.

         O desafio maior consiste no viver a coerência do que se crê com o que se faz.

         Passo importante é dado quando o próximo, o outro, deixa de ser para mim aquele, o que é, ou está, fora de mim, para ser o meu outro eu, a quem com todo o meu ser, e sem nada esperar, ou cobrar, me ofereço: a verdadeira alteridade só acontece na total doação de si.

         E isso não é nada de extraordinário.

         Acontece, normalmente, no dia a dia, em pequenos, mas profundos, gestos, desde que, em nós, deixemos aflorar a sensibilidade, que nos propicia o crescimento do sentir com ( = simpatia ) para o sentir dentro ( = empatia ). Explico, com fato real, que protagonizei: enquanto em ambiente de espaço médico aguardava atendimento, vi a cena de mulher muito humilde, pessoa dedicada a varrer chão, tendo aferida, por enfermeira, a sua pressão arterial. “Alta”, disse a enfermeira. “Aguarde ali fora, que volto a chamá-la para nova aferição da pressão”. Antes que a mulher saísse, levantei-me, minhas mãos foram para seus braços, amparei-a, e disse-lhe: “Sabe o que é muito bom para baixar a pressão?”. E emendei: “Sorrir. Há quanto tempo você não sorri?”. E ela, creio que agradavelmente surpresa por ver um estranho importar-se com ela, me disse: “Olhe, com a boca, de vez em quando, mas com o coração, faz muito tempo”. Brincando, repliquei: “Sorria, então, porque daqui a um mês eu a consultarei, e quero senti-la feliz.” Nos abraçamos, e sorrimos, com simpatia e empatia.

         Atualmente, na minha vida, tenho valorizado e, por isso, multiplicado esse instantes, quiçá como passeata pessoal, mas se todos nós, dia a dia, também nos envolvêssemos com essa modalidade de passeata, algo me diz que os valores esgarçados paulatinamente se recompõem e, em primícias, conhecemos e construímos “a civilização do amor”.