segunda-feira, 13 de março de 2017

DE NETA E NETOS; FILHAS E FILHO; GENROS; ÂNGELA E EU



A voz não é mais infantil. Está em mutação, como todo o seu corpo. É Rafael, 12 anos, chegando aos 13, idade em que comecei a me dar por mim, adolescente, em 1960, com pai, mãe e irmã, aqui em Brasília, recém- chegados do Rio de Janeiro.
Rafael é emotivo, mas sereno.
Com 9 para 10 anos, seu irmão André. Entre o menino e o adolescente. É pensativo, introspectivo, discreto.
E, ainda, da união de Flávia, a filha, e Gilmar, o genro, Lucas e os seus 8 anos de muita energia, correria.
De Fernanda, a filha do meio, e Martin, o outro genro, nasceu Heitor, 6 anos, de boas gargalhadas, tremendo gozador, e Artur, 3 anos, ainda cauteloso, mas com a verve ensaiando o ser curtidor no gingado do andar e do batuque na mesa, no almoço dos sábados.
Claudia, a outra filha do meio, no meu coração sempre, não importando seus breves dias comigo.
Gabriel, nosso filho, ainda na dele.
Ângela, amada e companheira sempre, é amada e companheira sempre e isso é o amor: a certeza do infinito no caminhar juntos, entre lágrimas e sorrisos, da mulher e do homem.
Dessa brevíssima e muito simples descrição, desponta algo, para mim, de tão surpreendentemente belo: o “engenho e a arte” de Deus para conosco.
Não nos criou em formas; não nos fez em série de produção.
Não.
Deus criou-nos únicos e irrepetíveis.
Para cada um de nós, Deus nos fez artífices de nossa própria história de vida, que não é idêntica a de ninguém, não para que nos exaltemos, nos ambicionemos no que só em nós se identifica, mas para que o que nos identifica e é só nosso, nós não o reservemos para nós, mas o façamos frutificar em partilha com os outros que, também para nós, nos entregam o que deles é específico.
A isso, chamamos solidariedade, ou seja, dar-se continuadamente.
“Todo amor é extático”, disse alguém num belo dia. Com efeito, amar é extasiar-se, ou seja, sair de si para ir ao encontro: êxtase.
Mas “o engenho e a arte” de Deus para conosco patenteia-se, também, na família por isso, e no meu caso, dei a este artigo o título, que o apresenta: “De neta e netos; filhas e filho; genros; Ângela e eu”.
Com efeito, o Papa Paulo VI, na sua sábia Encíclica Populorum Progressio, para mim é definitivo ao analisar o significado de família. Diz:
“Porém, a família natural, monogâmica e estável, tal como o desígnio de Deus a concebeu e o cristianismo a santificou, deve continuar a ser esse lugar de encontro de várias gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social”. ( leia-se: Populorum Progressio nº 36 – pg. 31).
Sim, a família radica nesses três fundamentos: ser natural, monogâmica e estável: natural reconhecida na união da mulher e do homem, que na sua diversidade ontológica, na sua heterogeneidade, por essa definitiva razão propicia a complementaridade, estampada na unidualidade pela qual duas vidas, permanecendo cada qual em si, abrem-se ao mais íntimo de si para ofertá-lo, continuadamente, a quem, assim, adentra em si: “Por isso, deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e eles serão uma só carne” (leia-se: Gênesis 2, 24); monogâmica porque ela e ele, sem terceiros ou terceiras, na construção diuturna, sem dúvida de fadiga, de dúvida, de pranto, mas por isso mesmo que de crescimento, perseverança e harmonia, que só o amor-entrega em totalidade é capaz de possibilitar; estável porque não se é, nem se caminha, no que é transitório, precário, passageiro, alimento fugaz do relativismo mundano.
Sim, “a família é o lugar de encontro de várias gerações”. Encontram-se para que o “eu” não se absolutize no egocentrismo, mas se torne partilha, vivencie o “nós” e, então, seja expressão real, clara, viva “do conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social” (trecho da transcrição feita acima da Carta Encíclica Populorum Progressio).

Se Rafael, no hebraico a significar “Deus cura”, inicia este artigo, Maria Clara, a neta que às vésperas de completar 7 anos não se fez mais visível entre nós, culmina toda essa reflexão porque é presença constante em minha vida, certeza, assim, de que a morte não tem a palavra final porque a vida, acolhida em família, e nela vivida, ainda que por  segundos, não é lembrança, mas presença inextinguível. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

NA PRISÃO E FOSTES VISITAR-ME

                   

Cenas desumanas. A explosão da violência. Cenas que se repetem, há anos.
Esta última frase – “cenas que se repetem há anos” – é elucidativa no demonstrar o descaso dos governos – federal e estaduais – no tratar, séria, lúcida e objetivamente a questão penitenciária.
Aliás, a resposta imediata do governo Temer bate na velha tecla: “vamos construir mais presídios”.
Equívoco manifesto.
Essa “solução” bem dá a medida de como é considerado, ou melhor, como não é considerado, quem delinquiu.
Se é bandido, delinquente, marginal, fica mesmo colocado à margem, depositado num presídio, esquecido, até mesmo porque não vota, não é cidadão. Daí o jargão policial: “é elemento”. Não é pessoa.
Certo, a mulher e o homem que cometeram crimes graves e gravíssimos devem:
- ter sua liberdade perdida, temporariamente; e
- indenizar o dano causado.
A partir dessas duas premissas podemos estabelecer que a gravidade do crime é o fator de reclusão temporária e a reclusão é incompatível com o ócio.
Sim, porque ser a reclusão temporária, e não perpétua, está na razão direta de se coadunar com a possibilidade real de que quem consumou um delito venha a mudar de vida, reintegrando-se ao corpo social. Se não, se nisso não se apresenta o princípio norteador para a questão, então que se introduza a pena de morte.
A pena de morte é, para mim, a vitória do ódio.
Acabo de assistir documentário sobre a vida de Madre Teresa de Calcutá. “Luz da minha vida” é como se chama.
A luz existe para que, necessariamente, nos vejamos. Sem que nos vejamos é impossível que nos conheçamos. Sem que nos conheçamos é impossível que nos amemos. Sem que nos amemos é impossível fazermos do próximo, não mais o próximo, mas o nosso outro eu.
Trabalhei, por cerca de 8 anos no presídio de Brasília, chamado C.I.R., ou seja, Centro de Internação e Recuperação.
Antes, sentava-me atrás de uma mesa, como membro do Conselho Penitenciário do Distrito Federal e, burocrático e preconceituosamente, opinava sobre os pedidos dos presos por livramento condicional, indulto, etc. Rejeitava, em larga maioria, todos esses pedidos, pronunciando-me por seu indeferimento.
Estava eu a poucos quilômetros da unidade prisional; longe de mim olhar “os elementos” que pediam algo com previsão legal; e, continuava eu, placidamente, aos domingos indo à missa.
Alguns meses passados e, em conflito interior, a Deus pedi força, para enfrentar o problema; coragem para afastar o medo; e discernimento para não me desnortear. Fui ver “os elementos”.
Tantas e tantas vicissitudes, enorme aprendizado.
Após quase 8 anos, assumindo outra dimensão funcional, despedi-me de meus irmãos encarcerados – não mais “elementos”, mas irmãos – e deixei escrito uma frase, até hoje, e sempre, que palpita em meu coração:
“Nunca se perde a esperança, quando há a boa palavra, no bom momento”.
Megapresídios, como tolamente se apresentam como solução, são depósitos de homens, ali jogados no abandono e no ócio.
Servidores públicos do sistema prisional inserem-se em equivocada compreensão de segurança pública, que superdimensiona o aparato da violência e do medo e não valoriza o corajoso compromisso funcional de ver e conhecer.
Obscuros personagens de um mundo, assim obscuro, jamais compreenderão, até mesmo menoscabarão e repelirão: “que a luz existe para que, necessariamente, nos vejamos”.
“... na prisão, e fostes visitar-me” é o ensinamento de Jesus, escrito por Mateus, no capítulo 25, versículo 36, de seu Evangelho.
Ora, o estar preso não é estar à margem; não é ser condenado ao ostracismo, não é receber o rótulo de “elemento”.
O preso não perde a dignidade de ser pessoa por pior que tenha sido o seu crime, ou crimes praticados.
Visitar é ver e fazer-se visto para que o itinerário do encontro seja iniciado.
A obra de Madre Teresa de Calcutá motiva-se na expressão: “tenho sede”.
Deus tem sede de nós. E a sua sede é saciada quando responde à indagação, presente na continuação do texto, retro citado de Mateus:
“Quando foi que te vimos doente, ou preso, e fomos te visitar? Então o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizeste”. (Mt 25, 39-40).

Ou adotamos, e vivenciamos, por esse modo, o sistema prisional, ou a farsa continua.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

DEIXEM A LUZ NASCER; DEIXEM A VIDA VIVER

                                      

Tempos de exacerbada centralização egoística, tempos de falar desenfreado, deseducado e ofensivo, tempos, assim, que produzem lamentáveis desacertos.
Eis, muito a propósito, que tema vital ao convívio na formação de valores a definir a razão de ser da sociedade brasileira é decidido por modo absolutamente incompatível com o primado da democracia.
Com efeito, órgão fracionado – a turma – do Supremo Tribunal Federal e – é de se pasmar -, pelo pronunciamento escassíssimo de três (3) de seus componentes, revoga preceito do Código Penal, legalizando a prática do aborto até o terceiro (3º) mês da gestação.
É da índole da democracia que, repito o que disse acima, “tema vital ao convívio na formação de valores a definir a razão de ser da sociedade brasileira” tenha no Parlamento a sede natural de amplos debates e definição. Jamais em uma sala circunscrita às considerações de magistradas e magistrados, cujo número não atinge os dedos, sequer de uma de nossas mãos, por mais iluminados que acreditem ser.
O ministro Luis Roberto Barroso – e aqui o menciono porque capitaneou a formação da maioria dos três (3) votos – em palavras transcritas pelo jornal Correio Braziliense, na edição do dia 1º do mês em curso, página 6, disse:
“É uma decisão para que se adotem políticas públicas melhores do que a criminalização para evitar o aborto”.
E em outra passagem de sua entrevista:
“O Estado não deve tomar partido nessa briga. Ele deve permitir que cada um viva a própria crença”.
Essas afirmações não procedem.
Políticas públicas,sim, mas que retratem o compromisso real de defesa da vida o que – e isso é óbvio – significa, no caso brasileiro, dar o passo seguinte àquele dado em relação à violência conjugal contra a mulher, com a promulgação, em boa hora, da lei “Maria da Penha” e, assim, imperativo faz-se promulgar a lei “Maria do Abandono” justamente para que a mulher, que engravidou, e por isso queda por todos abandonada, receba dos serviços públicos acolhida completa e concreta, ela e sua filha, ou filho. Se não o desejar, que seja orientada a entregá-lo para adoção porque tantos são os casais que estão nessa angustiosa fila de espera para concretizar maternidade e paternidade tão maravilhosa e importante quanto a natural. Se com todas essas opções que lhe são oferecidas, decidir por matar sua filha, ou filho, então há de responder, por si ou com terceiros, pelo crime de aborto porque tudo se lhe concedeu e tudo, conscientemente, menosprezou.
Como se vê – e agora respondo à segunda afirmação do ministro Luis Roberto Barros – não há briga alguma, assim como a questão nada tem a ver com: “que cada um viva a sua própria crença”.
Todo o tema está, e se esgota – também já o disse linhas atrás -, “na formação de valores a definir a razão de ser da sociedade brasileira”.
Isso é constitucionalmente reservado ao Parlamento na definição de políticas públicas a serem implementadas pelo Executivo.
O Natal aproxima-se.
Natal é nascer.
Na língua que nós, brasileiras e brasileiros, falamos há expressão tão bonita e plena de sentido a apresentar, com exatidão, a gravidez: Dizemos, assim: “a mãe está para dar a luz”.
Sim, “dar a luz”.
Não há mais a escuridão do nada, a escuridão da ausência.
É apropriado, penso eu, realçar, aqui e agora, as palavras de Tomás de Celano, biógrafo de São Francisco de Assis, bem a propósito do significado do Natal e sobre o pedido do Santo de Assis à comunidade de Greccio para fazer um presépio:
“Fizeram um presépio, trouxeram palha, um boi e um burro. Greccio tornou-se uma nova Belém, honrando a simplicidade, louvando a pobreza e recomendando a humildade. A noite ficou iluminada como o dia: era um encanto para os homens e para os animais. O povo foi chegando e se alegrou com o mistério renovado em uma alegria toda nova. O bosque ressoava com as vozes que ecoavam nos morros”. (leia-se: Tomás de Celano – Vita Prima – em Fontes Franciscanas nº 85 – pg. 242).
Deixem a luz nascer; deixem a vida viver.

                                     Feliz Natal!  



  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"PERDEMOS TODOS"

                                         

Sob o título “Perdemos todos”, destaco palavras do jornalista Ricardo Noblat:

A MÍDIA AMERICANA, mas não só, assumiu como sua principal tarefa derrotar o misógino, sexista, racista, sonegador de impostos e temerário Trump. Compreensível que procedesse assim por meio de editoriais e de reportagens de investigação sobre personagem tão perigoso para o futuro do país e do planeta. Um homem asqueroso pelo que diz, fez e fará... FERIU TALVEZ DE morte axiomas que a sustentam e a legitimam, tais como a busca de isenção e equilíbrio, o principal pilar da sua credibilidade, e a oferta de visões conflitantes. Incorreu no erro primário, elementar, de confundir o que queria que acontecesse com o que poderia acontecer. Resultado: colheu um desastre de consequências retumbantes, talvez irreparáveis.” (coluna no jornal O Globo de 14.11.2016 – pg. 2).
Concluiu Ricardo Noblat:
“O DESCOLAMENTO DA mídia da realidade, seja por cegueira deliberada ou acidental, seja por partidarismo ou qualquer outro interesse inconfessável, não é um fenômeno Made in USA. Tem a ver com a crise universal do jornalismo, abalado pelo surgimento de novas mídias sem compromisso com a verdade. E só faz mal à democracia e à construção de um mundo menos desigual.”
Situação idêntica aconteceu em nosso Brasil.
A grande mídia brasileira fez perdurar, em diuturnas e bombásticas manchetes, quadro de noticiário até que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef fossem apeados do poder político de que desfrutava, notoriamente, o primeiro e exercido era, fruto de eleição corretamente conquistada, pela segunda.
Se é certo que a agremiação política a que pertencem – o Partido dos Trabalhadores -, por lideranças nefastas, deixou-se contaminar e, assim, sucumbiu ao mais deletério jogo de poder, traduzido no “toma lá, dá cá”, na inescrupulosa barganha política, para se perpetuar liderando a nação brasileira, o aparato midiático transformou esse partido, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef nos responsáveis únicos e exclusivos pelo negativo estado de coisas em que nós, brasileiras e brasileiros, mergulhamos.
Onde está o compromisso com a verdade, ponto essencial, e que no dizer de Ricardo Noblat marca “a crise universal do jornalismo”?
Muito a propósito, colho pertinente reflexão de São João Paulo II, em sua Carta Encíclica “Centesimus Annus”:

“Um obstáculo a tal crescimento pode vir da manipulação realizada por alguns meios de comunicação social, que impõem, pela força de uma bem orquestrada insistência, modos e movimentos de opinião, sem ser possível submeter a um exame crítico as premissas sobre as quais se fundamentam.” (leia-se: Centesimus Annus – nº 41 – pg. 78).
Sim, “a manipulação” das consciências pela “força de uma bem orquestrada insistência”.
Insistência que não se vê, porque reduzido a poucos dias de noticiário, em relação aos sucessivos escândalos que corroem o governo Temer e seus personagens de confiança: Henrique Eduardo Alves; Romero Jucá; Geddel Vieira Lima – esses já em situação de investigação consolidada-; Moreira Franco e Eliseu Padilha, em apuração; recordando-se, outrossim, o recebimento de denúncia, pelo Supremo Tribunal Federal,  contra Renan Calheiros. Todos esses personagens – e não nos esqueçamos, também, de Eduardo Cunha - pertencem ao PMDB.
A gravidade da conduta de Geddel Vieira Lima, para focarmos dado de que já não se fala, pessoa da mais estreita confiança de Michel Temer, gravidade, repito, já esquecida pela grande mídia, todavia generosa em destacar que:

“Em todas as respostas, o presidente tratou de colocar claramente o seu estilo de resolver as coisas evitando confrontos diretos. A coisa que mais fiz na vida foi arbitrar conflitos, disse Temer, referindo-se ao ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que teria gravado a última conversa que teve no gabinete presidencial, atitude que Temer chamou de “agressiva, ilógica, indigna e desarrazoada.” (jornal Coreio Braziliense de 28.11.2016 – pg. 2).
Ora, não há conflito a ser arbitrado entre a conduta funcional, corretíssima, do então Ministro Marcelo Calero e a conduta funcional, de óbvia ilicitude, do então Ministro Geddel Vieira Lima.
O primeiro manteve irretocável postura, pela negativa, ante as pressões, dissimuladas ou claras, que sofria de Geddel Vieira Lima com o beneplácito do colega Eliseu Padilha e o envolvimento direto de Michel Temer para que, em detrimento do interesse público, privilegiasse investimento patrimonial pessoal, totalmente ilegal: autorizar construção de unidades habitacionais verticalizadas em manifesto comprometimento do patrimônio histórico-urbano como afirmado pelos competentes órgãos da administração pública federal.
Também a circunstância de Marcelo Calero ter gravado as conversas que caracterizam esse ilegal cenário nada tem de “agressivo, ilógico, indigno e desarrazoado”, como publicamente enfatizou Michel Temer, beneplacitado pela grande mídia.
Constrangido, acuado, por servidores públicos de seu mesmo nível hierárquico, mas que notoriamente privavam, e privam, da amizade estreita do Chefe Maior, justo para que, ulteriormente, não se voltasse exclusivamente contra si a responsabilidade pela ilícita decisão, que se lhe cobrava, insistentemente, a Marcelo Calero só restava garantir-se, e garantir-se cuidando de obter meios, claros e concretos, à demonstração da verdade.
Também o Papa Francisco, certo que se volta no que diz ao alerta para os anunciadores da mensagem evangélica, com total pertinência registra:

“No mundo atual, com a velocidade das comunicações e a seleção interessada dos conteúdos feita pelos meios de comunicação social, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários.” ( leia-se: Evangelii Gaudium – nº 34 – pg. 31, grifei).
Importa, e aqui radica a essência vital da imprensa: informar, para formar, jamais deformar.
Se não for assim: “perdemos todos.”

    


   

sábado, 8 de outubro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS

Pedem-me que escreva sobre Francisco de Assis.
Tantos já o fizeram e tantos o farão porque Francisco de Assis nos desperta de nossa mesmice. Então, cada qual, de alguma forma, tocado por esse irmão não se guarda mais, e escreve. Afinal, escrever é revelar-se.
Pensava sobre que diretriz imprimir neste escrito, quando meus olhos pousaram sobre as “Fontes Franciscanas” e o marcador desse livro indicou-me a página 444, precisamente no trecho, que reproduzo:

“Senhor, responde Francisco, que queres que eu faça”? E o Senhor para ele: Volta para tua terra, eis que a visão que viste prefigura um feito espiritual a ser cumprido em ti, não por disposição humana, mas divina. Tendo-se feito manhã, voltou com pressa para Assis, seguro e alegre; e já, exemplo de obediência, esperava pela vontade de Deus.” (São Boaventura – Legenda Maior de São Francisco – em Fontes Franciscanas – pg. 444 – Editora Mensageiro de Santo Antônio – 2005).
Aí está: a centralidade da pergunta que, portanto, se torna pergunta-chave: “Senhor que queres que eu faça?”
Eis que nesse mundo de tanto barulho, tumulto, correria, preocupações e ocupações, tal indagação não tem lugar em nossas vidas. Consequência: ansiedade e stress, aliás quadro que estou experimentando, agora.
“Senhor que queres que eu faça?” não é abdicar da ação; não é refugiar-se em Deus, mas é ter a sabedoria de dialogar com Deus, torná-lo cotidiano em nossas vidas justamente como o Pai que, respeitando nossa liberdade, sempre convida-nos a caminhar com Ele. Não por acaso os primeiros seguidores de Jesus Cristo chamavam-se e tratavam-se como: “os do Caminho”.
“Volta para tua terra” é a resposta de Deus, ou seja, que nos façamos presença efetiva no mundo para ensiná-lo a transcender – “feito espiritual” – não em antagonismo ao mundo, não em ruptura com o mundo, mas, inseridos no mundo, elevá-lo por atitudes concretas de desapego e de solidariedade.
Eis porque Francisco, superando a primeira batalha, que é contra si mesmo, foi viver com os leprosos – condição de saúde humana que lhe causava asco nos seus tempos de fausto -, dizendo no seu Testamento:

“Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para os leprosos, mas o Senhor me conduziu para o meio deles e eu tive misericórdia com eles.” (Tomás de Celano – Primeira Vida de São Francisco – livro citado – pg. 196-197).
Que a leitora, que o leitor, que me acompanham neste itinerário escrito não se sintam incapazes de gestos tão largos.
Para Deus, não há medidas ou proporções aferíveis quantitativamente.
Basta que se faça manhã – “tendo-se feito manhã” – em nossas vidas.
Basta, portanto, que abramos o nosso ser para o que é simples, para o que é além de nós, não porque está fora de nós, mas porque nos elevamos a partir de nós – a isso eu chamo “conversão”, que é ultrapassar esquemas e sistemas preconcebidos e predispostos e, como diz o Papa Francisco, “deixar que Deus nos surpreenda” – e “obedientes” (= sabendo ouvir), por certo somos “seguros e alegres”.
                                                               Paz e Bem.                          




quinta-feira, 8 de setembro de 2016

SIM, SIM; NÃO, NÃO

                              

No Sermão da Montanha, para mim o núcleo central do ensinamento de Jesus Cristo, há breve frase tão plena de valiosíssima orientação para todos nós.
Diz Jesus Cristo:
“Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não”. (Evangelho de São Mateus 5, 37).
Essa frase remete-nos a nosso íntimo. Convida-nos a mergulhar no nosso próprio ser para descobrir o que somos, e agir, então conhecendo a verdade, como somos.
Nós não fomos feitos para os arranjos oportunistas, aliás não fomos feitos para arranjo algum porque o arranjo é a mentira travestida em verdade.
Nós não somos feitos para as concessões traiçoeiras com as quais nos acostumamos e delas sempre nos valemos para, inescrupulosamente, barganhar vantagens, favores, cenário de falsidades.
“Sede o vosso sim, sim; o vosso não, não”.
Essa frase nada tem de intolerância e nada tem de insensibilidade.
Essa frase liberta-nos. Liberta-nos da padronização dos estereótipos, da massificação em que nos dissolvemos, transformados em obedientes consumidores de estilo de viver repetitivo, alienado, medíocre. Se temos o que nos ofertam materialmente, se nos satisfazemos com os produtos do supérfluo erigidos em essenciais, de nós desaparece o cuidar, expressão mais pura do voltar-se para o outro, do envolver-se com o outro, do constituir o outro no seu próprio ser.
A arrogância enclausura-nos. Gracejamos, menosprezamos, humilhamos.
As notícias das degradações e das atrocidades em escala local, nacional e internacional são simples registros de conversas, dotadas essas conversas da informalidade do cotidiano ou da solenidade de foros maiores, que nada mais fazem do que reproduzir passos burocráticos dos que governam, dos que legislam, dos que julgam.
“Seja o vosso sim, sim; e o vosso não, não” é a dignidade de afirmar e de negar na motivação única do ato e do comportamento consciente, expressão lídima de quem desceu às próprias raízes humanas e, então, reconheceu que não nos bastamos por nós mesmos, que somos vocacionados a ir além de nós mesmos – e ir além de si mesmo é ser fraterno -, que nosso fim não tem fim porque por ele somos em Deus.
O Papa Paulo VI, na sua maravilhosa Carta Encíclica “Populorum Progressio”, leitura fundamental para nosso crescer pessoal e comunitário, ensina:
“42. É necessário promover um humanismo total. Que vem ele a ser senão o desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens? Poderia aparentemente triunfar um humanismo limitado, fechado aos valores do espírito e a Deus, fonte do verdadeiro humanismo. O homem pode organizar a terra sem Deus, mas sem Deus só a pode organizar contra o homem. Humanismo exclusivo é humanismo desumano. Não há, portanto, verdadeiro humanismo, senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exata do que é a vida humana. O homem, longe de ser a norma última dos valores, só se pode realizar a si mesmo, ultrapassando-se. Segundo a frase tão exata de Pascal: O homem ultrapassa infinitamente o homem.” (leia-se: Populorum Progressio nº 42- pg. 35).

Que assim seja porque a conversão de vida, o Deus-Amor nos oferece e propõe todo dia.    

quarta-feira, 27 de julho de 2016

HARMONIA

  
HARMONIA

Na revista Mundo e Missão, publicação do PIME – Pontifício Instituto das Missões -, da qual, em boa hora, tornei-me assinante, leio depoimento da irmã Silvia Leoni, missionária da Imaculada, de saída para Bangladesh:

“É a harmonia que está na base da vida do cristão e que permite a convivência do negativo com o positivo, pois confiança sem medo seria apenas ilusão, enquanto o medo sem confiança seria só destruição.” (Revista Mundo e Missão – nº 204 – agosto 2016 – pg. 43).
Detenho-me a refletir sobre essas palavras, que aguçaram o meu ser, tão logo as li.
A mensagem de Jesus centra-se na harmonia.
E por que assim?
Porque enquanto existir este mundo, em que estamos, é fantasia concluirmos que tragédias não acontecerão, que os sofrimentos cessarão.
É realidade inexorável que os dois polos por entre os quais nos conduzimos – a alegria e a dor – coexistam, dada a imperfeita condição humana.
A harmonia, expressão da paz e do amor, é que promove a reconciliação do nosso ser, quando fragmentado em si mesmo e dilacerado na relação com o outro, e porque nos reconciliamos lugar não há para divisões pessoais e coletivas.
Mas o que é a paz, pergunta-me, quem sabe em tom de desafio, o cético, como há alguns decênios vi e ouvi um cético, por esse mesmo modo, indagar o filósofo Alceu de Amoroso Lima?
Sereno, Alceu de Amoroso Lima simplesmente ensinou: “A paz é o equilíbrio no movimento”.
Sim, a paz não é a ausência de conflitos, não é o alheiar-se dos conflitos, não é o retirar-se dos conflitos. A paz, porque convive com os conflitos, é o mover-se incessantemente e jamais deprimir-se ante situações e fatos, ordinários ou extraordinários, movendo-se conscientemente, como bem orienta São Paulo – “examinai tudo e guardai o que é bom” (1 Tessalonicenses 5, 21) -, eis que movimentar-se é por-se, permanentemente, em missão; nunca recluir-se.
E o amor, o que se dirá do amor? Veja o que nos informa, sempre espalhafatosamente, a comunicação midiática e como ainda dizer do amor, continuará objetando nosso irmão cético?
Aqui, desenvolvo as ideias da irmã Silvia Leoni.
Amor não é sonho, não é idealização, não é ilusão. Porque é confiança, o amor é doação concreta e entrega real; é por-se em harmonia que, se negada, não nos conduzirá ao desistir porque, se desistimos, então o medo venceu a confiança e a consequência fatal é mesmo a destruição. Todo extremista, porque não confia absolutamente, é derrotado pelo medo e destrói, absolutamente.
No próximo dia 2 de agosto, os franciscanos, ordenados e seculares, e as irmãs clarissas, e irmãs e irmãos das terceiras ordens religiosas, celebrarão o “Perdão de Assis”, por seus 800 anos.
Em 1216, Francisco de Assis, na humilde Porciúncula, em oração, teve por Deus concedido o perdão, em indulgências, a todos quantos se arrependessem e, portanto, confessassem suas faltas.
Orar, ou seja, conversar sinceramente, é harmonizar-se com Deus. A harmonia é a sinfonia das criaturas, assim todas convergindo para Deus.
Termino com palavras do que se convencionou chamar a “Oração da Despedida”, de Jesus Cristo, a dizer, na celebração da unidade perfeita:


“Eu não rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pelas palavras deles. Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como  nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos, e o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste como amaste a mim”. (Evangelho de São João 17, 20-23).