quinta-feira, 13 de junho de 2019

NÃO SE PODE TERGIVERSAR COM OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS



Em 21 de fevereiro de 2016, o então juiz federal Sergio Moro, em conversa com o procurador da república Deltan Dallagnol, diz:
“Olá. Diante dos últimos desdobramentos talvez fosse o caso de inverter a ordem das duas planejadas”.
Em 27 de fevereiro, em nova conversa com o mesmo interlocutor, pergunta:
“O que acha dessas notas malucas do diretório nacional do PT? Deveríamos rebater oficialmente? Ou pela Ajufe?”
Em 31 de agosto de 2016 reclama com Deltan Dallagnol:
“Não é muito tempo sem operação?”
Em 07 de dezembro de 2015, Sergio Moro comunica a Deltan Dallagnol que:
“Então. Seguinte. Fonte me informou que a pessoa do contato estaria incomodada por ter sido a ela solicitada a lavratura de minutas de escrituras para transferências de propriedade de um dos filhos do ex-Presidente. Aparentemente a pessoa estaria disposta a prestar a informação. Estou então repassando. A fonte é séria”.
Eis trechos – e há outros tantos – publicados no domingo passado pelo site “The Intercept”.
Sem dúvida o atributo essencial da atividade judicial, a imparcialidade é garantia da cidadania e expressão do Estado Democrático de Direito, constitucionalmente consolidada no artigo 5º, inciso XXXV. Posto que o princípio é o da inafastabilidade do Poder Judiciário para a solução dos conflitos, é imperativo constitucional que o magistrado atue com imparcialidade, sob pena de mergulharmos no  arbítrio do juiz. Extravasar sentimentos pessoais a privilegiar, escancaradamente, uma das partes na controvérsia judicial posta a seu exame viola a referida imparcialidade.
Eis porque imperiosa se faz a abertura de plena investigação sobre tais fatos.
Não há de prosperar o argumento de que em se tratando de conversa privada sua interceptação e publicização invalidaria essa prova, assim apresentada. As circunstâncias mostram, ao contrário, que as revelações têm caráter político e as conversas são sobre temas públicos.
Fatos gravíssimos revelados, se se vive em sociedade autenticamente democrática, não podem ser escondidos; colocados sob o manto do silêncio para que sejam esquecidos. Tais fatos são certos. Os diálogos existiram. O teor das conversas não foi negado.
A transparência é o melhor instrumento da verdade, assim posta ao conhecimento de todos. O esquecimento sobre o conduzir-se de quem quer que seja agente público não se compraz com o necessário controle da cidadania participativa.
  O membro do Ministério Público, portanto, não pode, por qualquer meio, mancomunar-se com o julgador; aceitar qualquer tipo de instrução ou orientação advinda de juiz da causa, porque o membro do Ministério Público tem a missão constitucional relevante “de defesa da ordem jurídica e do regime democrático” – artigo 127 da Constituição Federal – pelo que é o fiscal da correta aplicação da lei, mostrando-se intolerável sua ostensiva participação em privilegiar-se de comportamento judicial, que o favoreça unilateralmente.
Os personagens dos diálogos acima, na dimensão dos fatos postos, não representam a magistratura federal nem o ministério público federal.
Não se pode tergiversar com os princípios constitucionais!


ÁLVARO AUGUSTO RIBEIRO COSTA – ex-Procurador Federal dos Direitos do Cidadão.
CLAUDIO LEMOS FONTELES – ex-Procurador Geral da República.
MANOEL LAURO WOLKMER DE CASTILHO – Juiz do Tribunal Regional Federal da 4ª Região aposentado.
WAGNER GONÇALVES – ex-Procurador Federal dos Direitos do Cidadão.


terça-feira, 4 de junho de 2019

PODERIA ESTAR SORRINDO, TAMBÉM


                       

O general chinês Wei Fenghe, ministro da defesa da China, ao tratar do que conhecido ficou como o “Massacre na Praça da Paz Celestial” – quão triste ironia – quando, segundo organizações humanitárias, cerca de 3.000 pessoas, em sua maioria estudantes e trabalhadores foram assassinados no dia 4 de junho de 1989, considerou que:
“Esse incidente foi uma turbulência política e o governo central adotou medidas para deter as turbulências, o que é uma política adequada”. (jornal Correio Braziliense – 3/6/19 – pg. 13).
Outra matéria jornalística, publicada ao lado da que se vem de registrar, tem a foto do Papa Francisco, mães e crianças ciganas à sua frente, seguida de palavras suas endereçadas à comunidade cigana no findar sua visita à Romênia:
“Carrego um fardo: o peso das discriminações, das segregações e dos maus-tratos sofridos por sua comunidade. A história nos diz que até mesmo os cristãos, inclusive os católicos, não são alheios a tanto mal”.
O Papa disse ainda:
“Peço perdão em nome da Igreja ao Senhor e a vocês pelas vezes em que, no curso da história, nós os discriminamos, maltratamos ou olhamos mal”.
É o que se tem hoje.
A autossuficiência dos que não admitem graves erros cometidos no passado; dos que, em deformado espírito de corporação, tentam justificar barbaridades acontecidas, traduzidas em torturas, desaparecimentos, mortes, tudo avalizando em quadro de necessidade da segurança como “política adequada”, para rememorarmos as palavras do general Wei Fenghe.
Essa postura é inaceitável.
A hierarquia e a disciplina jamais podem autorizar a legitimação de toda e qualquer forma de menosprezo pela vida humana.
A vida humana é sagrada porque sopro de Deus que faz o acontecer humano como ápice da criação: “Façamos o ser humano a nossa imagem e segundo nossa semelhança” está no versículo 26, capítulo 1, do Livro do Gênesis.
“Ápice da criação” não para que a mulher e o homem disponham a bel prazer de tudo o mais, criado por Deus, mas “ápice da criação” porque o Deus-Amor, porque não é solidão, necessita comunicar-se; quer amar e ser amado e, assim, oferece à mulher e ao homem esse convite à descoberta e à permanência no amor.
Agora e assim, plenas de sentido as palavras e as atitudes do Papa Francisco.
Pedir perdão.
Pedir perdão é desfazer-se da autossuficiência; abrir o coração e, então, tornar-se humilde.
Humilhar-se é abaixar-se; nivelar-se com a terra (= húmus, que é a raiz da palavra humilde) e não mais exaltar-se; segregar; zombar; violentar; mutilar; eliminar.
Dias recentes marcam, em culminância de estado evidente de desestruturação vivencial, o comportamento de casal homoafetivo feminino a torturar; mutilar, decepando o pênis, e assassinar, esquartejando brutalmente, o menino Rhuan Maycon, filho de uma delas.
Por que tanto desatino?
A ruptura.
A ruptura consigo mesmo que conduz ao desvario, que se expressa em comportamentos pessoais e coletivos de destruição.
Já não sou; já não me possuo; já não me conheço; já não me domino. Entrego-me, com outras e outros, como estou: perdido porque sem raízes.
Lis e Mel, duas gemeazinhas siamesas, unidas pelo crânio, após mais de um mês no Hospital da Criança de Brasília, acabam de ter alta hospitalar e voltam ao seu lar com sua mãe e seu pai.
Disse o Dr. Benício Oton, coordenador de neurologia do Hospital da Criança:
“Conheci a família no ano passado e nós enfrentamos tudo juntos. Na quinta-feira da última semana, quando vimos as crianças sorrindo na enfermaria, nossa equipe também sorriu”. (jornal Correio Braziliense – 4/6/2019 – pg. 22).
Sim, solidarizar-se no “enfrentamos tudo juntos” e olhar as crianças como a fonte dos sorrisos e sorrir, também, torna impossível qualquer ruptura existencial.
Rhuan Maycon, o menino de 9 anos, poderia estar sorrindo, também.  




domingo, 12 de maio de 2019

NÃO NOS É DADO DESANIMAR




“Onde há amor e sabedoria, não há temor nem ignorância. Onde há paciência e humildade, não há ira, nem perturbação. Onde há pobreza com alegria, não há cobiça nem avareza. Onde há quietude e meditação, não há afã nem divagação”. (Adm. nº 27).
Palavras presentes no escrito, conhecido como: “Admoestações”.
Admoestar, aqui, não significa recriminar.
Muito pelo contrário, admoestar vem do verbo latino “admoneo” que significa: “fazer pensar”; “chamar a atenção sobre”; “fortalecer alguém na busca de seu projeto de vida”. (Fontes Franciscanas – pg. 88).
Sim, muito provavelmente se não emanaram do punho de São Francisco de Assis, as Admoestações são sínteses de suas intervenções orientadoras para os irmãos em Fraternidade.
O amor afasta o temor porque amar é doar-se, sair de si mesmo, e o medo só acontece porque nos fechamos no que temos e somos e, assim enclausurados, invade-nos o medo de perder tudo o que conquistamos.
O amor não é conquista; é oferta do que se é porque expressão da sabedoria, que nos indica o outro não como objeto de conquista, mas como oportunidade única de encontro; crescimento mútuo; conhecimento pleno.
Como temer se não mais ignoro?
Amar é perceber e aguardar o tempo certo. Desnudar-se, então, do querer possessivo de tudo comandar. A humildade ensina-nos a aguardar porque não somos o centro do mundo, que nos rodeia e em torno de nós gravita.
Que ninguém nos rodeie, ou gravite em torno de nós, para que, despidos do egocentrismo narcisista, ofertemos nossas mãos as mãos de todos, no que se é, assim, fraterno.
Como perturbar-se, irar-se, se espero porque me reconheço necessitado dos demais.
O amor é sorriso e simplicidade porque o sorriso mostra o descontrair do coração e a face límpida, desfeita a sisudez e a dureza. E o sorriso verdadeiro simplesmente acontece porque diz da espontaneidade, da naturalidade.
Como cobiçar, como tornar-se avaro, se me conduz o sorriso?
O amor silencia para poder meditar. Cair em si para poder revelar-se porque “somos uma interioridade em busca de uma exterioridade”, como ensina o filósofo humanista Emmanoel Mounier.
Tempos acelerados, descompassados, midiáticos, barulhentos eis porque tão superficiais, secundários, medíocres, enganadores.
Sim, mas não nos detenhamos lamurientos e derrotados.
São Francisco a dizer de sua conversão e itinerância, tudo tão bem resumiu, quando afirmou:
“E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho”. (Testamento nº 6, 14).
Porque temos irmãs e irmãos, e elas e eles estão sempre ao nosso alcance, não nos é dado desanimar.

                                                       Paz e Bem.



segunda-feira, 4 de março de 2019

O FALAR REVELA QUEM A PESSOA É


                  

“Quando se sacode a peneira, ficam nela só os refugos: assim os defeitos da pessoa, na sua maneira de opinar. Como o forno prova os vasos do oleiro, assim é a prova da tribulação para os justos. O fruto revela como foi cultivada a árvore: assim a palavra que provém do pensamento do coração. Não elogies a ninguém, antes de ouvi-lo falar: aí está a pedra de toque das pessoas”.  (Bíblia Sagrada – tradução da CNBB – 2001 – pg. 917).
Eis o que escreveu Jesus ben Sirac, no início do século 2º antes de Cristo, e que se põe no capítulo 27, versículos 5 a 8, do Livro do Eclesiástico, que compõe a literatura sapiencial do Antigo Testamento.
Escrito esse de Jesus ben Sirac de notável atualidade.
Com efeito, o jornal Correio Braziliense, na edição de ontem, domingo dia 3 de março, em manchete “Onda de ódio da internet”, publicada na página 5, noticia:
“A morte do neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva invadiu as redes sociais com manifestações de apoio e também com uma onda de ódio. Internautas chegaram a comemorar a morte de Arthur, de apenas sete anos, em comentários no Facebook e no Twitter. Uma blogueira chegou a escrever menos um corrupto para roubar o país. Esse movimento de hasters ganhou força na sexta-feira quando o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) se manifestou contra a ida de Lula ao enterro do neto no cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo (SP). Ele classificou o pedido como absurdo e, além de chamar o ex-presidente de larápio, afirmou que ele aproveitaria o funeral posando de coitado”. (matéria subscrita pelo repórter Bruno Santa Rita).
Sim, o falar revela quem a pessoa é.
No que veiculado pela mídia escrita, temos deputado federal, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República Jair Bolsonaro, destilando e propagando ódio insano.
Insano porque motiva seja comemorada a morte de uma criança, como está dito na transcrição jornalística retro.
Insano porque espezinha a profunda dor de quem é avô e surpreendido é com morte súbita de neto.
Essa dor eu, avô, experimentei quando minha neta, Maria Clara, também contando 7 anos de idade, foi fatalmente vitimada em acidente automobilístico.
É tão cedo para dizer adeus a vidas que estão no seu desabrochar e, portanto, nos encantariam pelo hoje e pelo amanhã, que haveriam de viver...
A estúpida e cruel frase de que o avô “larápio” aproveitaria o funeral “posando de coitado” é o refugo mais abjeto porque evidencia total falta de solidariedade humana, absoluta ausência de compaixão.
Se a mediocridade, nessas palavras estampadas, óbice se faz a gestos de grandeza, que se cale.
“O fruto revela como foi cultivada a árvore”, rememoremos a transcrição feita da passagem do Livro do Eclesiástico.
Como são cultivadas pessoas que dizem tamanha barbaridade? Em que ambiente crescem?
Certamente, trazem em si mágoas, dores, frustrações profundas.
Quem sabe na infância, na adolescência, na juventude e mesmo agora na idade adulta acalentassem o sonho de crescerem num lar em paz, mesmo nas dificuldades do cotidiano, mas num lar em paz porque o amor conseguiria ter a palavra final, que respeita, que acolhe, que congrega, que incentiva, e não o comando autoritário, que tudo amedronta e suprime, assim gerando a solidão, o rancor, a agressão, o desvario.
Considero, firmemente, que também podemos nos valer do trecho lido do Livro do Eclesiástico para ilustrar o lado extremamente negativo das redes sociais.
Sacudidas, acontece, e com notável frequência, à tona virem os refugos que se mostram nas notícias falsas; na superficialidade gritante de tantos conteúdos tratados e na covarde postura de deixar-se diluir na formatação do pensamento uniforme.
Se, e com plena sabedoria, está dito no Livro do Eclesiástico: “não elogies a ninguém antes de ouvi-lo falar”, atualizando esse ensinamento é de se dizer: “não digites nada, antes de tudo bem examinar”.
Às vésperas estamos da Quaresma, tempo propício ao necessário recolhimento para a frutuosa decisão, então que nos abramos à revisão do que e do como temos vivido para que sejamos missionários do tempo que respeita, que acolhe, que congrega e que, portanto, incentiva a prática do bem.


 


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

A PAZ


                                                

Vivíamos no Brasil ares primeiros de abertura política. A ditadura militar esvaia-se.
Até por isso, na televisão surgiu programa de debates, sintomaticamente chamado: “Abertura”.
Assistia-o, com frequência.
Certa feita, no programa expunham suas ideias o filósofo Alceu de Amoroso Lima e o antropólogo Darcy Ribeiro. Este, de inopino, como lhe era peculiar, questiona, desafiadoramente, Alceu de Amoroso Lima:
“Alceu, o que é a paz?”
Alceu de Amoroso Lima, sereno, responde-lhe:
“Darcy, a paz é o equilíbrio no movimento”.
Essa definição trago-a sempre porque dela sempre me alimento ante as angústias, as tristezas, as decepções, quando me assaltam.
Em inspirado momento a Igreja Católica celebra no dia 1º de janeiro, a propósito do nascer de um novo ano, o Dia Mundial da Paz.
Detenho-me na Mensagem do Papa Francisco para este ano de 2019.
Vale-se do ensinamento de Jesus, presente no Evangelho de São Lucas, que ao missionário – todas e todos nós, verdadeiramente vivendo, havemos de estar em missão – diz-lhe da frase primeira a ser dita: “A paz esteja nesta casa”. (LC 10, 5-6).
Leiamos, a propósito, o Papa Francisco:
“Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam a paz. A casa, de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa casa comum: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude”. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz/2019 – nº 1).
Sim, a paz é oferta. Expressão de entrega, atenção e respeito para quem é oferecida, não importa quem seja. “A todos os homens e mulheres” a paz é oferecida, “sem distinção, nem discriminação alguma”.
E por quê?
Porque todos habitamos a casa, que nos é comum, prossegue o Papa, porque Deus nos deu a habitação para estarmos e, onde estamos, somos e podemos desenvolver nossos dons e nossas capacidades – outros mimos de Deus para conosco -, daí porque “somos chamados a cuidar com solicitude” de nossa moradia: o planeta Terra.
Ora, a casa comum implica na presença da vida comunitária e, assim, a política – a solicitude para com todos os assuntos pertinentes à cidade (= polis) – apresenta fundamental importância.
Afirma o Papa Francisco:
“Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação, da humanidade. Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições de um futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade”. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz/2019 – nº 2 – grifos do original).
Sim, a política é serviço eficaz comprometido com a realização do bem comum. E o bem comum jamais prescindirá do “respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas”.
Assim, a política transcende a acanhada e deturpada concepção de instrumento de conquista do poder pelo poder para dotar-se de significado profundo e real de “forma eminente de caridade” (= amor).
Por ser manifestação do amor, “as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política são: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade”, conclui o Papa Francisco. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz/2019 – nº 3).
De outra banda, os vícios da política, que desestabilizam a paz social, elenca-os o Papa Francisco:
“... a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou da instrumentalização das pessoas – a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da razão de Estado, a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio”. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz nº 4, grifos do original).
A superação desses vícios – infelizmente tão disseminados neste contexto histórico que experimentamos – requer decidida postura de acolhimento, abandono de preconceitos, disposição para ouvir e, francamente, expor-se, sem subterfúgios.
Ou, como magnificamente escreve o Papa Francisco:
“Torna-se uma confiança dinâmica, que significa fio-me de ti e creio contigo na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo”. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz – nº 5 – grifos do original e nossos).
E ainda há quem use de suas mãos, transformando-as em revólveres, para atirar.
Quão em completa separação estão esses, e os que os aplaudem, da mensagem evangélica que nos ofereceu o Cristo Jesus.
Termino com as lúcidas palavras do Papa Francisco ao encerrar a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz.
“Com efeito, a paz é fruto de um grande projeto político que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:
- a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência e – como aconselhava São Francisco de Sales - cultivando um pouco de doçura para consigo mesmo a fim de oferecer um pouco de doçura aos outros;
- a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia de encontro para ouvir a mensagem que traz consigo;
- a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro”.
                                                Paz e Bem!

sábado, 3 de novembro de 2018

"ESSA É UMA FORMA SUTIL DE VIOLÊNCIA"


                 

Leio que o juiz Sergio Moro sentiu-se honrado com o convite que o futuro presidente Jair Bolsonaro fez-lhe para comandar superdimensionado Ministério da Justiça.
Analiso a conduta de Sergio Moro.
A análise, porque serena, objetiva e fundamentada, deve lastrear-se em fatos certos.
Assim conduzo-me e apresento o primeiro fato.
Trata-se de decisão do juiz Sergio Moro autorizando a publicidade de conversa telefônica, então travada entre a Presidente Dilma Roussef e o cidadão Luiz Ignácio Lula da Silva, nomeando-o chefe da Casa Civil de seu governo.
Essa autorização deu-se quando o juiz Sergio Moro não mais detinha competência jurisdicional à prolação do ato, como decidiu o Ministro Teori Zavatski, à época, retirando-lhe validade jurídica.
No entanto, essa decisão foi encaminhada à mídia, que lhe conferiu enorme estardalhaço, todo centrado na construção de que o ato da Presidente significaria conceder impunidade total a Luiz Ignácio Lula da Silva, o que gerou forte repulsa popular.
Contudo, a produção noticiosa é totalmente equivocada. E assim o é porque o que aconteceria no conceder-se status de ministro de Estado a Luiz Ignácio simplesmente era submetê-lo à jurisdição do Supremo Tribunal Federal, que o processaria e julgaria, e não mais a instância de 1º grau.
Como, então, dizer-se de impunidade?
Quem o dissesse colocaria, irresponsável e infundadamente, em cheque a imparcialidade de nossa Suprema Corte.
Relembro que quando exerci o cargo de procurador-geral da República, o então presidente Luiz Ignácio Lula da Silva concedeu status de ministro de Estado ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na ocasião, que era investigado criminalmente. Um dos principais partidos de oposição – o PFL (Partido da Frente Liberal) – corretamente questionou tal ato, por dizê-lo incabível em sua edição por meio de decreto-lei, eis que não se enquadrava nas hipóteses constitucionais de utilização desse caminho normativo, tese a que aderi.
Na ocasião, ninguém manejou o absolutamente incabível argumento de que isso significaria impunidade porque, efetivamente, tal argumento faz-se em completo despautério. E assim o é, mesmo, porque no regime presidencialista o presidente da República goza de plena autonomia à formação de sua equipe de trabalho, arcando, isso sim, com o ônus de escolhas inadequadas.
O segundo fato é bem mais recente e diz com o acontecer das eleições, recém- findas.
Noticiou-se, amplamente, que o candidato Jair Bolsonaro caira 2 pontos percentuais, e o candidato Fernando Haddad subira 2 pontos percentuais, aproximando-os.
Tem-se, então, que o juiz Sergio Moro, contemporaneamente a essa situação, decide, de inopino e por si próprio, sem provocação do Ministério Público, titular da ação penal pública, e sem ouvir a defesa, quebrar o sigilo da delação premiada de Antonio Palocci, sigilo esse presente desde abril do ano em curso, portanto fazendo-o seis ( 6 ) meses já transcorridos,  decisão essa despida de qualquer fundamentação.
Seguiu-se o costumeiro estrépito jornalístico a propósito da corrupção do Partido dos Trabalhadores e sua maior liderança – Luiz Ignácio Lula da Silva – desfazendo-se o quadro de ascensão de Fernando Haddad.
Sacramentada a vitória do candidato Jair Bolsonaro e eis que, em menos de uma semana, o juiz Sergio Moro é convidado e honrosamente aceita comandar a pasta da justiça.
Ora, a prudência é a virtude maior sempre que se tenha que decidir em toda e qualquer situação do nosso viver cotidiano, que dirá para quem decide, profissionalmente.
Ainda hoje, reproduzida está pelo jornal Folha de São Paulo entrevista de Sergio Moro, datada do ano de 2016, concedida ao jornal Estado de São Paulo, quando peremptoriamente respondeu com enfática e repetida negativa ao ser indagado sobre se se candidataria a cargo eletivo ou entraria para a política.
Disse Moro: “Não, jamais. Não. Sou um homem de Justiça e, sem qualquer demérito, não sou um homem de política”.
A prudência manifesta o zelo com a coerência.
O estrelato e o encantamento são as vias sedutoras do egocentrismo.
Encerro este artigo.
Faço-o avivando palavras tão pertinentes do Papa Francisco para a presente reflexão.
“Não nos faz bem olhar com altivez, assumir o papel de juízes sem piedade, considerar os outros como indignos e pretender continuamente dar lições. Essa é uma forma sutil de violência”. (leia-se a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate – nº 117 – pg. 57, grifos meus).
                                                      Paz e Bem.


  


terça-feira, 23 de outubro de 2018

"Sê íntegro"


                                               

O Papa Francisco, na sua recente Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” – “Alegrai-vos e Exultai”-, rememora expressão de que Jesus Cristo se vale ao abrir o Sermão da Montanha, para indicar aos seus discípulos e a todos nós ensinar, que a simplicidade – “os pobres no espírito...”-; que o sofrimento – “os que choram...”-; que a mansidão – “os mansos...”-; que a justiça –“os justos”-; que a misericórdia – “os misericordiosos”-; que a autenticidade - “os puros de coração”- e a paz – “os que promovem a paz”- (leia-se: Mt 5, 3-9) são valores fundamentais para o testemunho real do verdadeiro encontro da mulher e do homem, consigo mesma, consigo mesmo e de ambos com Deus.
Mas o que nos propõe, hoje, o mundo e, em nosso País, o momento político, que atravessamos?
O ódio.
O ódio que, no pano internacional, dilacera multidões de emigrantes e refugiados, enxotados porque ameaçam o status econômico de países que atingiram dito status econômico na razão direta de praticarem, e continuarem a praticar, a exploração, real ou dissimuladamente, exatamente desses mais fracos: suprema desfaçatez.
O ódio que, no plano nacional, acometeu todas e todos quantos, num primeiro momento, foram tomados de profunda decepção ao ruir do projeto político que chegou a acalentar medidas reais de distribuição de riqueza, de acesso dos mais desafortunados a patamar acima na escala social, mas que se deixou seduzir e sucumbiu ao jogo do poder pelo poder; da ambição pela ambição.
O ódio que, ainda no pano nacional, expressou, pondo às claras, preconceitos e ressentimentos abafados porque o diferente de mim eis que mais pobre do que eu; eis que homossexual, e não hétero, como eu, passaram a conviver no meu espaço.
Ora, a democracia é, justamente, o melhor de todos os regimes políticos porque não promove espaços privatistas, de usufruto condominial segregador, mas impulsiona a convivência dos múltiplos espaços, estimula o respeito a todos os espaços nas diferenças peculiares de cada qual. Se se enfatizou, desmesuradamente, o grito dos discriminados, o caminho não está em deslegitimá-los, mas mostrar-lhes que o grito desmesurado é, também, preconceito embutido a incidir em igual viés de ódio discriminatório.
O ódio é o alimento dos medíocres e dos superficiais.
Porque medíocres e superficiais são levados – caniços ao vento – para aqui, para lá, para acolá, na dança das fake news (= notícias falsas).
Medíocres e superficiais não têm raízes porque não intuem; não consideram; não contemplam; não se põem a agir, ou seja, não intuem porque não se abrem ao que surge; abrindo-se, necessariamente analisam e, então, consideram; considerando, contemplam porque se sintonizam com o que surge e sintonizados, então assim conscientes, agem responsavelmente.
Recordo, aqui, expressiva passagem do Gênesis:
“Abrão tinha noventa e nove anos, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: Anda na minha presença e sê íntegro”. (Gn 17, 1)
Aí está: que sejamos íntegros.
Ser íntegro é não dividir-se; não se deixar levar pelo detalhe, pelo superficial, pelo secundário.
Ser íntegro é conhecer-se, sabendo que esse conhecimento só se alcança na relação com todas e com todos os demais, sem distinção, e com Deus.
O nosso tempo é de desintegração.
Quem quer que queira isso incentivar, como mote para vitória política, ou qualquer outro mote, está fadado à desintegração.